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Como desenvolver inteligência emocional na prática: o intervalo antes da reação

André Buric
11 min de leitura

O que é inteligência emocional, afinal?

Inteligência emocional é a capacidade de ler o que você e a outra pessoa estão sentindo e usar essa leitura antes de reagir. Ela vai além do que a pessoa faz: pergunta por que ela faz.

O André Buric parte da inteligência tradicional para mostrar a diferença. No sentido clássico, a pessoa inteligente compara cenários e toma uma decisão racional atrás da outra. "O grande problema é que nós, humanos, não somos apenas razão. Nós temos também o nosso lado emocional, e ele é bastante significativo, especialmente no nosso processo decisório" (minuto 1:23).

A emoção de outra pessoa não está escrita na testa dela. Por isso a inteligência emocional é uma leitura:

"É como se você estivesse olhando para as situações ao seu redor e não olhasse somente para o óbvio, mas visse também o que tem por trás do óbvio. Você olha para uma situação e pensa: por que essa pessoa está agindo dessa forma? Não somente eu vejo que ela está agindo, mas por que ela está agindo. E você faz isso antes de dar a sua resposta." (minuto 2:27)

O exemplo que ele dá: dar retorno sobre o trabalho de alguém é importante; dar esse retorno no dia em que a pessoa acabou de perder um parente, não é (minuto 3:00). Parece óbvio, e só parece óbvio porque você acionou a sua inteligência emocional.

A definição que o André usa no vídeo (minuto 5:21) segue a linha do artigo que propôs a inteligência emocional como um conjunto de habilidades, de Peter Salovey e John Mayer, publicado em 1990. Segundo o resumo do artigo, são 3 grupos de habilidades:

  1. Avaliar e expressar a emoção com precisão, em si e nos outros.
  2. Regular a emoção, a sua e a dos outros.
  3. Usar os sentimentos para se motivar, planejar e realizar.

O termo ficou conhecido do grande público em 1995, com o livro Inteligência Emocional, de Daniel Goleman.

Este tema em vídeo, com André Buric

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A inteligência emocional pesa mais que o QI?

Não dá para dizer que pesa mais. Dá para dizer que soma: ela ajuda a prever o desempenho no trabalho além do que o QI e a personalidade já preveem.

O próprio André abre o vídeo com a frase que muita gente repete: a de que a inteligência emocional decide mais o sucesso de uma pessoa do que o quociente de inteligência (minuto 0:34). O que as revisões de estudos encontraram é mais modesto, e mais útil:

RevisãoO que reuniuO que encontrou
O'Boyle e colegas, 201165% mais estudos que a revisão anterior, com mais que o dobro de pessoasCorrelação corrigida de 0,24 a 0,30 com o desempenho no trabalho, e previsão além da inteligência e dos 5 grandes traços de personalidade
Joseph e Newman, 2010Estudos de inteligência emocional medida como habilidadePreviu melhor desempenho em trabalhos de alta carga emocional, e pior nos de baixa carga emocional
Mattingly e Kraiger, 201958 estudos de treino, publicados e não publicadosEfeito positivo moderado do treino sobre a pontuação de inteligência emocional

Ou seja: a inteligência emocional não substitui o raciocínio. Ela é a parte que decide se o raciocínio chega inteiro à hora de agir. E ela se treina, que é o que interessa a quem quer desenvolver. Se a sua dúvida é qual curso fazer, o guia de cursos de inteligência emocional compara 7 opções lado a lado.

Onde mora a inteligência emocional?

No intervalo entre o estímulo e a sua reação. Quem reage na hora não tem esse espaço; quem abre alguns segundos entre uma coisa e outra decide com mais maturidade.

"É neste intervalo entre o estímulo e a sua reação que mora a inteligência emocional. Em geral, as pessoas não permitem esse intervalo: quando acontece alguma coisa, elas reagem de forma imediata. Isso é o que uma cobra faz. Se você pisa numa cobra, ela vai reagir. Ela não vai ficar pensando: coitado, foi sem querer. A cobra não possui inteligência emocional. E nós, humanos, podemos possuir, desde que a gente permita esse intervalo." (minuto 4:26)

O e-mail que chega e irrita é o exemplo do dia a dia: você responde na hora, talvez porque já vinha com raiva de outra coisa, e desconta numa terceira pessoa que não tinha nada com isso (minuto 3:57). "Se você tivesse esperado um pouco mais de tempo, você teria tido uma resposta muito mais madura."

Por que a reação sai antes do pensamento?

Porque o inconsciente é mais rápido que o consciente. Sem o intervalo, o automático assume a resposta inteira e o consciente nem chega a entrar.

"Entre a ação e a reação, o inconsciente é muito rápido. Ele assume absolutamente toda a dinâmica. Se for muito rápido, o consciente não consegue chegar e falar: por que eu vou reagir assim?" (minuto 11:58).

O automático não é o vilão dessa história. Ele existe para proteger você, e responde rápido justamente por isso. O problema é quando ele responde sozinho a uma situação que pedia escolha. Por isso o primeiro passo é aumentar o espaço. É o mesmo mecanismo por trás da raiva com quem você ama e do grito que escapa com os filhos: a reação sai antes da escolha.

Quais são os 2 lados que se treinam?

O seu momento e o momento da outra pessoa. Os 2 se treinam, e a palavra é essa mesma: treinar (minuto 5:47).

LadoA pergunta antes de reagirO erro mais comum
1. O seu momento"Eu estou num bom momento para responder isso agora?"Responder no calor e descontar em quem não tem nada com o seu problema
2. O momento da outra pessoa"O que essa pessoa está vivendo para agir assim?"Ler a reação dela como ataque pessoal

Sobre o primeiro, o André dá o exemplo do trânsito: alguém entra na sua frente e você transforma a pessoa em inimiga. "O problema é que às vezes não seja a pessoa; talvez seja você" (minuto 6:31).

Sobre o segundo: "As pessoas não fazem as coisas de forma tão aleatória assim. Muitas vezes ela está simplesmente num momento difícil, e está reagindo daquela forma. É o momento dela. E do mesmo jeito que você tem os seus, ela também tem os dela" (minuto 7:25). Quando as 2 pessoas estão fora do seu melhor, o conflito dobra.

Por que a gente desconta nos outros?

Porque, no fundo, espera que o mundo trate você diferente quando você não está bem. Ser adulto é cuidar do próprio problema sem criar um problema novo para quem está perto.

"No fundo, isso representa uma certa expectativa de que, quando a gente não está muito bem, as outras pessoas reajam da maneira específica que a gente gostaria. Eu quero que a pessoa saiba e perceba que eu não estou muito bem, e eu quero que ela me atenda. [...] Ser adulto é exatamente ser capaz de lidar com os seus próprios problemas com maturidade, e não descontar nos outros o que nada tem a ver com a outra pessoa." (minuto 8:26)

O André lembra um ditado conhecido, "quem não vive para servir não serve para viver", e tira dele a virada: o crescimento vem quando você gera valor, e não quando espera que o mundo sirva você (minuto 9:27).

Qual exercício desenvolve a inteligência emocional?

Uma lista no fim de cada dia: as reações que você teve, as boas e as ruins, e o gatilho de cada uma. Com o tempo, você reconhece o gatilho na hora em que ele acontece.

O passo a passo que o André propõe (minuto 12:24):

  1. Todo fim de dia, pare alguns minutos. Não vai dar para lembrar de tudo, e não precisa: as reações com carga emocional são as que voltam à memória.
  2. Anote as reações positivas e negativas. "Reagi muito bem ao retorno do meu chefe"; "reagi muito mal àquela mensagem".
  3. Ao lado de cada uma, escreva o gatilho. O que despertou aquela reação, principalmente as negativas.
  4. Deixe a lista crescer. Ela vira um mapa de como você funciona.
  5. Use o mapa no dia seguinte. Quando o gatilho aparecer, você vai perceber: "está acontecendo". Esse instante de consciência já é o intervalo.

Um modelo de caderno, com 3 linhas de exemplo:

Reação de hojeFoi boa ou ruim?O gatilho
Respondi seco à mensagem do grupoRuimCobrança chegando depois das 22h
Ouvi o retorno da reunião sem me defenderBoaTinha dormido bem e chegado com tempo
Levantei a voz no trânsitoRuimAtraso de 15 minutos que já vinha de casa

"Na próxima vez que aquilo acontecer, você fala: está acontecendo o gatilho. E isso automaticamente já trouxe o seu consciente para o jogo, porque senão ele nem entraria. [...] Um ser humano que possui inconsciente, mas também o consciente. E a junção dessas duas frentes te traz a chance de escolher um novo caminho." (minuto 13:37)

Por que escrever o que sentiu ajuda a reagir melhor?

Porque pôr o sentimento em palavras reduz a resposta das áreas do cérebro ligadas à emoção. Isso foi medido em laboratório, com imagens do cérebro em funcionamento.

Em 2007, Matthew Lieberman e colegas publicaram na revista Psychological Science um estudo de ressonância magnética funcional sobre o que eles chamam de rotular o afeto (pôr o sentimento em palavras). O que o resumo relata:

  • Pôr o sentimento em palavras, em comparação com outras formas de registrar a mesma imagem, diminuiu a resposta da amígdala e de outras regiões ligadas à emoção diante de imagens negativas.
  • Ao mesmo tempo, aumentou a atividade numa região do córtex pré-frontal (a parte da frente do cérebro), do lado direito.
  • Quanto mais essa região pré-frontal se ativava, menos a amígdala respondia.

Ou seja: quando você escreve "reagi mal, o gatilho foi a cobrança", você não está só fazendo um diário. Está treinando a parte do cérebro que entra no intervalo. (A ligação entre o estudo e o caderno do fim do dia é uma leitura da casa: o estudo mediu rotular imagens no laboratório, não um caderno.)

Como saber se a inteligência emocional está se desenvolvendo?

Quando o que antes disparava você deixa de disparar. O André conta o que viu em 15 anos de carreira em empresas, de estágio a cargo executivo (minuto 14:19).

No começo, cada erro de planilha vira drama. Com o tempo, a pessoa aprende a separar o que merece atenção do que só acende um gatilho. O sinal de progresso, na prática:

  • o mesmo gatilho aparece e você percebe antes de responder;
  • a lista do fim do dia começa a repetir os mesmos 3 ou 4 gatilhos, e você passa a vê-los chegando;
  • a conversa difícil termina sem você precisar pedir desculpa depois.

Se a lista mostrar que os gatilhos voltam sempre iguais, há um padrão por trás deles, e por que você repete os mesmos padrões explica de onde ele vem.

Perguntas que as pessoas fazem

Inteligência emocional se aprende ou já nasce com a pessoa?

Se aprende. Uma revisão de 2019 reuniu 58 estudos de treino e encontrou efeito positivo moderado. E o André é enfático: os 2 lados, o seu momento e o da outra pessoa, se treinam.

Quanto tempo leva para desenvolver inteligência emocional?

Não há um prazo fixo. O primeiro sinal costuma vir quando a lista de gatilhos do fim do dia começa a se repetir: aí você passa a reconhecer o gatilho no momento em que ele aparece.

Inteligência emocional é não sentir raiva?

Não. É sentir e não ser governado pelo que sente. A raiva continua aparecendo; o que muda é o intervalo entre ela e o que você faz com ela.

Qual a diferença entre inteligência emocional e controle emocional?

O controle emocional cuida da sua reação. A inteligência emocional inclui também a leitura da outra pessoa: por que ela está agindo assim, e se este é o momento dela para ouvir o que você tem a dizer.

Por que eu explodo com quem eu mais gosto?

Porque é com essas pessoas que o intervalo some primeiro. Com quem é de casa, a expectativa de receber atenção sem precisar pedir é maior, e a reação sai no automático.

E se as reações estão fortes demais para dar conta?

Se a reação dura semanas, tira o sono ou atrapalha o trabalho, procure um profissional de saúde. O exercício deste artigo é para o dia a dia, não substitui esse cuidado.

O que fica

A inteligência emocional mora no intervalo entre o que acontece e o que você faz. Sem intervalo, o inconsciente, que é mais rápido, responde por você; com ele, o consciente entra no jogo e você escolhe.

Ela não vale mais que o QI: soma a ele. Se treina por 2 lados, o seu momento e o da outra pessoa. E o treino mais simples cabe em 5 minutos no fim do dia: a reação e o gatilho, por escrito.

Se quiser ver quais padrões disparam as suas reações, o diagnóstico Inside Brain é gratuito e faz esse mapa em poucos minutos. Para reprogramar o automático que reage antes de você, o BrainLAB é o programa da casa. E o Mergulho no Inconsciente mostra de onde vêm os gatilhos que você anotou.

Fontes

  • Buric, A. (2022). Como Desenvolver INTELIGÊNCIA EMOCIONAL Na Prática. Canal BrainPower no YouTube. youtube.com/watch?v=w8O5hnFJDM4
  • Salovey, P. e Mayer, J. D. (1990). Emotional Intelligence. Imagination, Cognition and Personality, 9(3), 185-211. doi.org/10.2190/DUGG-P24E-52WK-6CDG
  • Goleman, D. (1995). Emotional Intelligence. Bantam Books.
  • O'Boyle, E. H., Humphrey, R. H., Pollack, J. M., Hawver, T. H. e Story, P. A. (2011). The relation between emotional intelligence and job performance: A meta-analysis. Journal of Organizational Behavior, 32(5), 788-818. doi.org/10.1002/job.714
  • Joseph, D. L. e Newman, D. A. (2010). Emotional intelligence: An integrative meta-analysis and cascading model. Journal of Applied Psychology, 95(1), 54-78. doi.org/10.1037/a0017286
  • Mattingly, V. e Kraiger, K. (2019). Can emotional intelligence be trained? A meta-analytical investigation. Human Resource Management Review, 29(2), 140-155. doi.org/10.1016/j.hrmr.2018.03.002
  • Lieberman, M. D., Eisenberger, N. I., Crockett, M. J., Tom, S. M., Pfeifer, J. H. e Way, B. M. (2007). Putting Feelings Into Words: Affect Labeling Disrupts Amygdala Activity in Response to Affective Stimuli. Psychological Science, 18(5), 421-428. doi.org/10.1111/j.1467-9280.2007.01916.x

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André Buric

Assinado

André Buric

Neurocientista, mestre em Psicologia e Neurociência da Saúde Mental pelo King's College London. Fundador do BrainPower.
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