Padrões cerebrais
Como parar de gritar com os filhos: o grito começa antes da birra
A cena que você prometeu que não ia repetir
São sete e meia da manhã. Você pediu para calçar o tênis uma vez, com calma. Pediu de novo. Na terceira, a voz já saiu mais firme. Na quarta, saiu o grito. Alto, maior do que a situação, com uma raiva que você nem sabia que estava ali.
A criança para, assustada. E você sente, quase ao mesmo tempo, o alívio de ter sido obedecido e um nó no estômago.
Depois vem o resto, que quem tem filho conhece de cor: a culpa no caminho para a escola, o abraço mais apertado na volta, a promessa feita para si mesmo de que amanhã vai ser diferente. E amanhã, na mesma hora, com o mesmo tênis, acontece de novo.
Quase todo conteúdo sobre esse assunto oferece uma lista de dicas: respire fundo, conte até dez, abaixe na altura da criança, troque o grito por um combinado. As dicas não estão erradas. O problema é que quem grita com o filho quase sempre já conhece todas. Sabe o que deveria fazer. E, na hora, não faz.
Este artigo parte de outra pergunta. Não "o que fazer no lugar do grito", mas "de onde vem o grito", porque é aí que ele pode começar a perder a força.
O que o grito faz com a criança, e com a relação
Vale começar pelo que a pesquisa mostra, sem exagero e sem terrorismo.
Em 2014, Ming-Te Wang e Sarah Kenny publicaram na Child Development um estudo que acompanhou 976 famílias. Eles mediram o que chamaram de disciplina verbal dura: gritar, xingar, insultar. Os pais que usavam esse tipo de disciplina quando os filhos tinham 13 anos viram, no ano seguinte, um aumento nos problemas de comportamento e nos sintomas depressivos desses adolescentes.
Dois detalhes do estudo merecem atenção. O primeiro: o carinho dos pais em outros momentos não anulou esse efeito. A relação podia ser afetuosa no geral, e o grito continuava pesando. O segundo: o caminho também ia no sentido contrário. O mau comportamento dos filhos aos 13 anos previa mais gritos dos pais no ano seguinte.
Ou seja: o grito não resolve o comportamento que quer corrigir. Ele alimenta um ciclo. O filho reage, o pai ou a mãe grita mais, o filho reage mais. E cada volta deixa as duas pontas mais cansadas.
Nada disso é motivo para mais culpa. Culpa, como você já sabe, não impediu o grito de ontem. É motivo para entender o mecanismo.
O grito começa antes da birra: a leitura de meio segundo
Em 2005, os pesquisadores Michael Lorber e Susan O'Leary publicaram no Journal of Consulting and Clinical Psychology um estudo com 93 mães e seus filhos pequenos. Eles observaram as interações em laboratório, mediram a reação do corpo das mães (como a frequência cardíaca) e, depois, pediram que elas assistissem ao vídeo da interação e contassem o que tinham sentido e pensado em cada momento.
O que previa a disciplina exagerada não era só a raiva. Era a leitura que a mãe fazia do comportamento da criança. Quando ela interpretava o comportamento de forma negativamente enviesada, algo como "ele está fazendo isso de propósito", "ela está me desafiando", a emoção virava reação desproporcional. E o corpo acelerado, por conta própria, também empurrava para o exagero.
Repare no que isso significa. Entre o tênis que não foi calçado e o grito existe uma frase que você nem escuta: "ele está me testando", "ninguém me respeita nesta casa", "eu não dou conta". É essa frase que transforma um atraso de três minutos numa ameaça. E ela roda em meio segundo, antes de qualquer conselho chegar.
É por isso que contar até dez funciona tão pouco no momento crítico. A contagem acontece na camada que pensa. O grito sai da camada que já decidiu.
As três camadas do grito
No BrainPower, lemos o comportamento em três camadas: o consciente, a emoção e o inconsciente. O grito com o filho aparece nas três.
No consciente, ele aparece como método. "Se eu não gritar, ninguém me ouve." "Criança precisa de limite." "Eu também levei bronca e estou aqui." A pessoa tem argumentos, e alguns são verdadeiros: criança precisa mesmo de limite. Só que limite e grito são coisas diferentes.
Na emoção, aparece o que os argumentos não contam: o cansaço acumulado do dia, a sensação de estar sozinho na tarefa, a impotência de pedir e não ser atendido. O corpo acelera antes da cabeça entender o que está acontecendo. No artigo sobre a raiva com quem você ama, mostramos por que o pior de uma pessoa costuma sair justamente em casa: é onde ela tira a armadura que segurou o dia inteiro. Com os filhos, a armadura cai ainda mais rápido, porque ali não há chefe, não há cliente, não há consequência imediata.
No inconsciente, mora a história. Em 2009, Jennifer Bailey e colegas publicaram na Developmental Psychology um estudo com três gerações de uma mesma família: avós, pais e filhos. A disciplina dura mostrou continuidade de uma geração para a seguinte: quem tinha recebido mais disciplina dura tendia a usá-la depois, com os próprios filhos. Ninguém escolhe isso. A pessoa jura que nunca vai falar com o filho do jeito que falaram com ela, e um dia ouve a própria voz saindo com o tom exato da mãe ou do pai.
Isso não é condenação. É mecanismo. O cérebro aprendeu, numa época em que você não tinha como escolher, o que se faz quando uma criança não obedece. E, sob pressão, ele volta para o que aprendeu primeiro. É o mesmo princípio do medo herdado: muito do que a gente carrega chegou vendo e ouvindo quem cuidava da gente.
O que fazer, de verdade, quando você é quem grita
Entender de onde o grito vem não faz ele sumir amanhã. Mas abre movimentos que a lista de dicas nunca abre.
Escute a frase de meio segundo. Nas próximas vezes, logo depois do grito (antes não vai dar, e tudo bem), pergunte: o que eu achei que meu filho estava fazendo comigo? A resposta costuma ser alguma versão de "me desrespeitando" ou "me testando". Escreva. Com o tempo, você começa a reconhecer a frase enquanto ela ainda está se formando.
Dê nome ao que você sente, em voz alta. Em 2007, Matthew Lieberman e colegas mostraram, na Psychological Science, que colocar um sentimento em palavras reduz a resposta da amígdala, a estrutura do cérebro central na reação de alarme. Dizer "eu estou com muita raiva agora e vou respirar antes de falar" não é fraqueza diante da criança. É o cérebro passando da reação para a regulação, e a criança vendo, na prática, como isso se faz.
Repare no tanque, não só na cena. O grito das sete e meia raramente é sobre o tênis. É sobre a noite mal dormida, a reunião que está esperando, a sensação de carregar a casa sozinho. Quem só olha para a cena vai continuar perdendo. Quem olha para o tanque descobre onde o grito começou, horas antes.
Repare depois. Se o grito saiu, ele saiu. O que vem depois ainda é seu. Voltar até a criança e dizer "eu gritei com você, e o problema não era você, era o meu cansaço; eu sinto muito" ensina mais sobre emoção do que qualquer sermão. Os pesquisadores John Gottman, Lynn Katz e Carole Hooven descreveram, em 1996, no Journal of Family Psychology, como a forma com que os pais lidam com as emoções, as próprias e as dos filhos, se relaciona com a capacidade das crianças de se acalmar e de se relacionar.
Procure a voz que grita. Quando o grito sair, pergunte com honestidade: de quem é esse tom? Não para culpar ninguém. Para devolver aquele jeito de educar ao lugar de onde ele veio e abrir espaço para escolher o seu.
Uma leitura guiada: o mapa do seu grito
Leve cinco minutos, à noite, depois que as crianças dormirem.
Lembre do último grito. Um só. Que horas eram, o que tinha acontecido antes, o que a criança fez.
Encontre a frase. O que você achou, naquele instante, que o comportamento dela queria dizer sobre você?
Meça o tanque. De zero a dez, quanta energia você tinha naquela hora? O que já tinha te esvaziado?
Ouça o tom. O grito lembrou a voz de alguém?
Repare na repetição. Os gritos costumam acontecer nos mesmos horários, nas mesmas situações? Padrão que se repete tem lógica, e lógica pode ser lida.
Uma ressalva honesta: esse mapa mostra o caminho do grito, mas não reescreve sozinho o que foi aprendido lá atrás. O consciente pode entender tudo e, às sete e meia da manhã, o corpo acelerar do mesmo jeito. É por isso que mexer na raiz pede um trabalho próprio, e é o que fazemos no Mergulho no Inconsciente.
Perguntas que as pessoas fazem
Por que eu grito com meu filho mesmo sem querer?
Porque o grito costuma sair de uma leitura automática, e não de uma decisão. O estudo de Lorber e O'Leary (2005) mostrou que a interpretação negativa do comportamento da criança ("está fazendo de propósito") e a reação do corpo, como a frequência cardíaca acelerada, empurram para a disciplina exagerada. Somam-se o cansaço acumulado e o modo de educar que a pessoa aprendeu na própria infância.
Gritar com o filho faz mal?
A pesquisa indica que gritar, xingar e insultar como forma de disciplina tem efeitos. No estudo de Wang e Kenny (2014), com 976 famílias, a disciplina verbal dura aos 13 anos previu aumento de problemas de comportamento e de sintomas depressivos no ano seguinte, e o carinho dos pais em outros momentos não anulou esse efeito. Um grito isolado não define uma criação; o que pesa é o padrão.
Gritar com o filho é crime?
A Lei 13.010/2014, conhecida como Lei Menino Bernardo, garante à criança o direito de ser educada sem castigo físico e sem tratamento cruel ou degradante, definido como conduta que humilhe, ameace gravemente ou ridicularize. As medidas previstas para os responsáveis são aplicadas pelo Conselho Tutelar e incluem advertência e encaminhamento a programas de orientação à família. Este artigo não é orientação jurídica; em caso de dúvida, procure o Conselho Tutelar ou um profissional do direito.
Como pedir desculpas ao filho depois de gritar?
Volte até a criança quando os dois estiverem calmos, diga o que aconteceu sem justificar ("eu gritei com você"), separe o comportamento dela da sua reação ("o problema não era você, era o meu cansaço") e diga o que vai tentar fazer diferente. Isso mostra, na prática, que emoção forte pode ser reconhecida e reparada.
Por que eu repito com meu filho o que meus pais faziam comigo?
Porque o jeito de educar é aprendido, em grande parte, sem perceber, vendo e vivendo. O estudo de Bailey e colegas (2009), com três gerações de famílias, encontrou continuidade da disciplina dura de uma geração para a seguinte. Sob pressão, o cérebro tende a voltar ao que aprendeu primeiro. Perceber de onde vem o tom é o primeiro passo para escolher outro.
Quando procurar ajuda profissional?
Se o grito vem junto de agressão física, se a raiva parece fora de controle, ou se você ou a criança estão em sofrimento intenso, procure um profissional de saúde mental ou o serviço de saúde da sua cidade. Este artigo fala de padrões de comportamento do dia a dia e não substitui esse acompanhamento.
O que fica
Quem grita com o filho quase nunca é alguém que ama pouco. É alguém cansado, que carrega uma leitura automática e uma história que não escolheu, tentando dar conta de tudo com o que aprendeu primeiro.
O grito não começa na birra. Começa na frase de meio segundo, no tanque vazio e na voz de quem educou você. Quando essas três coisas aparecem, o grito deixa de ser um destino e volta a ser o que deveria ser: uma reação que você pode reconhecer, reparar e, aos poucos, trocar.
E talvez a parte mais bonita seja esta: o que o seu filho aprende de mais duradouro não é que você nunca perdeu a paciência. É ver você voltar, reconhecer e escolher diferente.
Se o grito aparece junto de outros padrões, como não conseguir dizer não ou repetir os mesmos padrões mesmo tentando mudar, o diagnóstico Inside Brain é gratuito e mostra, em poucos minutos, quais padrões estão operando em você agora.
Fontes
- Wang, M.-T. e Kenny, S. (2014). Longitudinal links between fathers' and mothers' harsh verbal discipline and adolescents' conduct problems and depressive symptoms. Child Development, 85(3), 908-923. doi.org/10.1111/cdev.12143
- Lorber, M. F. e O'Leary, S. G. (2005). Mediated paths to overreactive discipline: Mothers' experienced emotion, appraisals, and physiological responses. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 73(5), 972-981. doi.org/10.1037/0022-006X.73.5.972
- Bailey, J. A., Hill, K. G., Oesterle, S. e Hawkins, J. D. (2009). Parenting practices and problem behavior across three generations: Monitoring, harsh discipline, and drug use in the intergenerational transmission of externalizing behavior. Developmental Psychology, 45(5), 1214-1226. doi.org/10.1037/a0016129
- Lieberman, M. D., Eisenberger, N. I., Crockett, M. J., Tom, S. M., Pfeifer, J. H. e Way, B. M. (2007). Putting feelings into words: Affect labeling disrupts amygdala activity in response to affective stimuli. Psychological Science, 18(5), 421-428. doi.org/10.1111/j.1467-9280.2007.01916.x
- Gottman, J. M., Katz, L. F. e Hooven, C. (1996). Parental meta-emotion philosophy and the emotional life of families: Theoretical models and preliminary data. Journal of Family Psychology, 10(3), 243-268. doi.org/10.1037/0893-3200.10.3.243
- Brasil. Lei nº 13.010, de 26 de junho de 2014 (Lei Menino Bernardo). planalto.gov.br
Manda para quem ama os filhos mais que tudo e, mesmo assim, perde a paciência:
Continue lendo
Assinado
André Buric
Neurocientista, mestre em Psicologia e Neurociência da Saúde Mental pelo King's College London. Fundador do BrainPower.
Conhecer a trajetória