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Como criar filhos corajosos: troque o "cuidado" por 1 pergunta
A palavra que mais se ouve no parquinho
A criança põe o pé no primeiro degrau do escorregador. Antes do segundo degrau, alguém já gritou "cuidado".
Sente 10 minutos num banco de parquinho e conte. Pela nossa observação, é a palavra que mais se repete ali, e ela costuma vir em 3 versões:
- "Cuidado!", a cada degrau, mesmo quando nada mudou.
- "Você vai cair", dito como previsão.
- "Desce daí", quando o aperto no peito de quem olha fica grande demais.
As 3 nascem de amor. Ninguém grita "cuidado" para atrapalhar. Só que a palavra ensina o contrário do que a gente quer: em vez de mostrar onde está o perigo, ela avisa que o mundo é perigoso e que a criança não dá conta dele.
Este artigo é para quem quer criar filhos corajosos sem virar imprudente. Ele não propõe soltar a criança sozinha no brinquedo. Propõe trocar 1 palavra por 1 pergunta, e ficar do lado.
Por que repetir "cuidado" não ensina a criança a se cuidar?
Porque a criança pequena aprende menos com a palavra e mais com o seu rosto: na dúvida, ela olha para quem cuida e copia a reação que encontra.
A psicologia do desenvolvimento chama isso de referenciamento social, e ele foi medido em laboratório pelo menos 2 vezes de forma muito clara.
O estudo do precipício visual (1985). James Sorce, Robert Emde, Joseph Campos e Mary Klinnert publicaram na revista Developmental Psychology uma série de 4 estudos com bebês de 12 meses. O bebê ficava diante de uma superfície de vidro com um desnível aparente, ajustado para uma altura que deixava dúvida, e a mãe ficava do outro lado. O resumo do trabalho relata:
- Mãe com expressão de alegria ou de interesse: a maioria dos bebês atravessou.
- Mãe com expressão de medo ou de raiva: muito poucos atravessaram.
- Sem desnível nenhum: poucos bebês olharam para a mãe, e os que viram o rosto de medo hesitaram, mas atravessaram mesmo assim.
A terceira linha é a mais importante. O rosto de quem cuida pesa mais justamente quando a criança está em dúvida.
O estudo da Universidade de Reading (2006). Marc de Rosnay, Peter Cooper, Nicolas Tsigaras e Lynne Murray testaram 24 duplas de mãe e bebê (12 meninos), com bebês de 12 a 14 meses. Cada bebê via a mãe conversar com um estranho em 2 condições: de forma tranquila e de forma ansiosa. As mães tinham sido treinadas para as 2 condições, nenhuma delas tinha ansiedade social relevante, e nenhuma fazia gesto direto para o bebê sobre o estranho. Depois, o bebê interagia com o mesmo estranho.
O resultado, segundo o resumo: depois da conversa ansiosa, os bebês ficaram significativamente mais medrosos e evitaram mais o estranho. O efeito foi maior nos bebês de temperamento mais medroso.
Ou seja: o medo passa de quem cuida para quem é cuidado, sem que ninguém diga uma palavra sobre ele.
Uma ressalva honesta: os 2 estudos mediram bebês de cerca de 1 ano, em laboratório, diante de um desnível ou de um estranho, e não crianças de 4 anos num escorregador. A ponte entre uma coisa e outra é leitura nossa.
| O que você diz | O que você quer ensinar | O que a criança tende a ler |
|---|---|---|
| "Cuidado!" a cada degrau | Onde está o perigo | Que o perigo está em toda parte |
| "Você vai cair" | Atenção | Que cair é o resultado esperado |
| "Desce daí" | Limite | Que ela não dá conta daquela altura |
| "Onde você vai pôr o pé agora?" | Atenção ao próprio corpo | Que alguém confia nela e está perto |
Brincar com risco faz bem ou faz mal para a criança?
Pelo que a pesquisa reuniu até aqui, os efeitos são positivos no conjunto. O recorte "risco do tamanho da idade, com alguém por perto" é nosso, e não da pesquisa.
Em 2015, Mariana Brussoni e outros 14 pesquisadores publicaram no International Journal of Environmental Research and Public Health uma revisão sistemática sobre brincadeira de risco ao ar livre. O resumo registra:
- 21 artigos avaliados, cobrindo 3 tipos de brincadeira de risco.
- Efeitos positivos no conjunto, mais comumente em atividade física, e também em saúde social e comportamentos sociais, lesões e agressão.
- Uma ressalva dos próprios autores: faltam mais estudos de boa qualidade.
Em 2011, Ellen Sandseter e Leif Kennair publicaram na revista Evolutionary Psychology um artigo teórico que ajuda a ler esse resultado. O argumento deles: medos como o de altura e o de estranhos aparecem naturalmente na infância e protegem a criança do que ela ainda não consegue enfrentar. A brincadeira de risco expõe a criança, aos poucos e com prazer, justamente ao que ela temia. Conforme a habilidade cresce, o medo diminui. É um artigo teórico, e não um experimento.
Ou seja: o medo não vai embora longe do escorregador. Vai embora no escorregador, com você do lado.
O que dizer no lugar de "cuidado"?
Faça uma pergunta que ponha a atenção da criança no próprio corpo, e não no seu rosto. São 4 perguntas, para usar já no próximo brinquedo:
| Em vez de | Pergunte | O que muda |
|---|---|---|
| "Cuidado!" | "Onde você vai pôr o pé agora?" | Ela para de olhar para o seu medo e olha para o próprio pé |
| "Segura direito!" | "Onde você vai segurar?" | Ela escolhe o apoio, em vez de obedecer a um susto |
| "Você vai cair daí" | "Como você vai descer daí?" | Ela planeja a descida antes de subir mais 1 degrau |
| "Solta não!" | "Tá firme aí? Testa antes de soltar." | Ela aprende a conferir, que é o que a prudência é |
A regra das 4 é a mesma: a pergunta deixa você perto e devolve a decisão para ela. São uma proposta prática da casa, apoiada na leitura dos estudos acima, e não um protocolo testado em pesquisa.
A exceção, que não é pequena: perto da piscina, da rua ou de uma altura que não perdoa, o aviso curto continua. Ali o risco é de verdade e não dá segunda chance. Nesse caso:
- Diga 1 "para" firme, e não 1 "cuidado" a cada passo.
- Chegue perto e segure, se for preciso.
- Explique na sequência, mesmo que você ache que a criança ainda não entende.
O que fazer no segundo antes do pulo?
Chegue perto, estenda o braço, olhe nos olhos e espere: quem decide o pulo é a criança.
Repare numa criança na beira da piscina. Ela olha a água e, antes de pular, olha para quem está cuidando. Esse segundo olhar não é para a água. Ela está conferindo se tem alguém ali.
O psiquiatra britânico John Bowlby deu nome a isso no livro A Secure Base, de 1988: base segura. A ideia é que a criança vai mais longe quando sabe que tem para onde voltar. Coragem de criança, nessa leitura, não nasce do empurrão. Nasce de saber que alguém segura.
Nesse segundo, quem cuida costuma fazer 1 de 3 coisas:
| A reação | A frase | O que a criança aprende |
|---|---|---|
| Empurrar | "Vai, pula logo" | Que o medo dela incomoda, e que é melhor esconder |
| Resgatar | "Vem, deixa pra lá" | Que o medo tinha razão, e que ela não ia conseguir |
| Estar presente | Braço estendido, olhar, silêncio | Que o medo existe, e que dá para passar por ele |
As 2 primeiras são as mais comuns, e as 2 tiram da criança a decisão. A terceira dá mais trabalho, porque pede que você aguente o seu próprio aperto por alguns segundos sem resolver por ela.
De onde vem o aperto no peito de quem cuida?
Muitas vezes ele é mais antigo do que a criança: é o "cuidado" que gritaram com você.
No BrainPower, lemos o comportamento em três camadas: o consciente, a emoção e o inconsciente. O "cuidado" repetido aparece nas três.
- No consciente, ele é regra de boa criação: "é minha obrigação avisar", "se cair, a culpa é minha".
- Na emoção, é o aperto no peito e a respiração presa a cada degrau.
- No inconsciente, mora a pergunta que não foi você quem escolheu: quantas vezes você ouviu "cuidado" quando subia em alguma coisa, e o que aprendeu sobre o mundo naquele dia?
Por isso saber de tudo isto não basta para a palavra parar de sair. Ela é um automático de proteção, aprendido cedo, que dispara antes de você pensar. O artigo sobre o medo herdado abre esse mecanismo com mais calma.
E 1 número para tirar o peso da culpa. Em 2007, Bryce McLeod, John Weisz e Jeffrey Wood registraram, no resumo de uma metanálise publicada na Clinical Psychology Review, que em achados anteriores o jeito de criar respondia por menos de 4% da variação na ansiedade das crianças. Você não condenou ninguém com o seu "cuidado". Você só pode, daqui para a frente, deixar de entregar a ele o seu medo.
Perguntas que as pessoas fazem
Meu filho é medroso: o que fazer?
Comece pelo seu rosto, e não pelo medo dele. No estudo de 2006 com 24 bebês de 12 a 14 meses, a reação ansiosa da mãe bastou para o bebê evitar um estranho. Fique perto, troque o aviso por 1 pergunta e deixe a decisão com a criança.
Devo forçar a criança a enfrentar o medo?
Não é o que propomos. Empurrar ("vai, pula logo") e resgatar ("deixa pra lá") são 2 jeitos de decidir por ela. O caminho do meio tem 3 gestos: chegar perto, estender o braço e esperar. Quem decide o pulo é a criança.
Parar de dizer "cuidado" não é perigoso?
Não, porque você continua do lado. A troca é de palavra, e não de presença. E perto de piscina, rua ou altura que não perdoa, o aviso curto e firme continua valendo: 1 "para", com explicação logo depois.
Brincar com risco machuca mais?
A revisão de 21 artigos de Brussoni e colegas (2015) encontrou efeitos positivos no conjunto, inclusive no indicador de lesões, e pediu mais estudos de boa qualidade. Neste artigo, risco é o desafio do tamanho da idade, com alguém por perto. Não é perigo sem supervisão.
Proteger demais deixa a criança medrosa?
O medo de quem cuida passa para a criança, como mostram os estudos de 1985 e de 2006. Mas o peso disso não é destino: o resumo de McLeod, Weisz e Wood (2007) cita menos de 4% da variação na ansiedade infantil ligada ao jeito de criar.
Quando procurar ajuda profissional?
Se o medo da criança preocupa você ou atrapalha o dia a dia dela, converse com o pediatra. E se o que preocupa é o seu próprio aperto, que não cede, vale conversar com um profissional de saúde. Este artigo fala de padrões de comportamento do dia a dia e não substitui esse acompanhamento.
O que fica
Você já faz a parte mais difícil, que é estar ali, olhando. O que muda é pequeno: no próximo brinquedo, segure a palavra e faça 1 pergunta. Na próxima beira, não empurre e não tire. Chegue perto, estenda o braço e espere.
Filho corajoso não é o que você solta. É o que não precisa carregar o seu medo.
Se quiser ver quais padrões estão operando em você agora, o diagnóstico Inside Brain é gratuito e faz esse mapa em poucos minutos. Se a sua paciência some quando tem gente olhando, leia sobre a birra em público. E, se o aviso costuma sair em forma de grito, veja como parar de gritar com os filhos.
Fontes
- Sorce, J. F., Emde, R. N., Campos, J. J. e Klinnert, M. D. (1985). Maternal emotional signaling: Its effect on the visual cliff behavior of 1-year-olds. Developmental Psychology, 21(1), 195-200. doi.org/10.1037/0012-1649.21.1.195
- de Rosnay, M., Cooper, P. J., Tsigaras, N. e Murray, L. (2006). Transmission of social anxiety from mother to infant: An experimental study using a social referencing paradigm. Behaviour Research and Therapy, 44(8), 1165-1175. doi.org/10.1016/j.brat.2005.09.003
- Brussoni, M. e colegas (2015). What is the relationship between risky outdoor play and health in children? A systematic review. International Journal of Environmental Research and Public Health, 12(6), 6423-6454. doi.org/10.3390/ijerph120606423
- Sandseter, E. B. H. e Kennair, L. E. O. (2011). Children's risky play from an evolutionary perspective: The anti-phobic effects of thrilling experiences. Evolutionary Psychology, 9(2), 257-284. doi.org/10.1177/147470491100900212
- McLeod, B. D., Weisz, J. R. e Wood, J. J. (2007). Examining the association between parenting and childhood depression: A meta-analysis. Clinical Psychology Review, 27(8), 986-1003. doi.org/10.1016/j.cpr.2007.03.001
- Bowlby, J. (1988). A Secure Base. Ano de publicação conferido na Open Library.
Manda para quem pode estar agora num banco de parquinho, prendendo a respiração a cada degrau:
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Assinado
André Buric
Neurocientista, mestre em Psicologia e Neurociência da Saúde Mental pelo King's College London. Fundador do BrainPower.
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