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Birra em público: o que fazer quando todo mundo está olhando

· 9 min de leitura

A cena no meio da festa

A criança se joga no chão no meio da festa. E a primeira coisa que o adulto faz, quase sempre, é olhar para os lados.

Repare em qualquer festa de criança, fila de mercado ou restaurante. Quando uma criança chora ali, quem cuida dela muda em segundos:

  • A voz endurece. A bronca sai mais alta do que sairia em casa.
  • Ou vem o agrado rápido. O doce, o celular, o "tá bom, toma", só para acabar logo.
  • O olhar se divide. Metade na criança, metade em quem está assistindo.

Em casa não é assim. Em casa você abaixa, espera, resolve. Você sabe lidar com a criança que cria. O que muda em público não é ela, e também não é o seu preparo. É a plateia.

Este artigo trata da birra em público pelo lado que quase nenhuma lista de dicas olha: o lado do adulto. O que o olhar dos outros faz com o seu corpo, por que isso é proteção e não defeito, e o que fazer na próxima vez.

Por que a paciência de casa some na frente dos outros?

Porque, com gente olhando, o seu corpo entra em alerta e passa a cuidar da sua imagem antes de cuidar da criança. Não é falta de amor nem de método: é uma resposta de estresse medida em laboratório.

Em 2004, Sally Dickerson e Margaret Kemeny publicaram no Psychological Bulletin uma revisão de 208 estudos de laboratório sobre estresse agudo e cortisol, o hormônio que o corpo libera em situação de ameaça. O resumo do trabalho afirma 3 coisas que interessam aqui:

  1. Nem todo estresse dispara o cortisol. O efeito variou muito de uma tarefa para outra.
  2. Duas condições dispararam. A tarefa ser incontrolável, ou trazer ameaça de avaliação social, ou seja, a chance de o desempenho ser julgado de forma negativa por outras pessoas.
  3. As duas juntas foram o pior caso. Tarefas incontroláveis e avaliadas pelos outros tiveram as maiores respostas de cortisol e o maior tempo de recuperação.

Agora olhe para a birra em público com essa lente. Uma criança chorando no chão é uma situação que você não controla. E há pessoas em volta, que você imagina julgando o seu jeito de educar. São as 2 condições, ao mesmo tempo.

Uma ressalva honesta: os 208 estudos mediram pessoas adultas em tarefas de laboratório, e não pais e mães em festas. A ponte entre uma coisa e outra é leitura nossa.

Em casaEm público
Quem assisteNinguémOutros adultos, conhecidos ou não
O que o seu corpo lêUma criança que precisa de ajudaUma criança que precisa de ajuda e um julgamento em curso
Para onde vai o seu olharPara a criançaPara os lados
O que você tende a fazerAbaixar, esperar, resolverBronca mais alta ou agrado rápido
O que você quer naquele minutoQue ela se acalmeQue a cena acabe

A última linha é a que decide. Quando o objetivo vira "acabar com a cena", qualquer saída serve, inclusive as 2 que você não escolheria com a cabeça fria.

O que é a birra, do lado da criança?

A birra é uma descarga de raiva e de angústia que a criança pequena ainda não consegue organizar sem ajuda. Não é um plano contra você.

Em 2003, Michael Potegal e Richard Davidson publicaram no Journal of Developmental and Behavioral Pediatrics um estudo com os relatos de pais e mães sobre as birras de 335 crianças de 18 a 60 meses, registradas em intervalos de 30 segundos. A análise encontrou 2 componentes principais e independentes:

  • Raiva: os comportamentos de bater, gritar e se jogar. A raiva de alta intensidade diminuiu com a idade.
  • Angústia: choramingar, chorar e buscar consolo.

Ou seja: dentro da mesma birra existe uma criança brava e uma criança que procura colo. Quem está em alerta por causa da plateia costuma enxergar só a primeira.

O que fazer na hora da birra em público?

Tire a plateia do seu campo de visão antes de fazer qualquer coisa com a criança. São 3 passos, nesta ordem:

  1. Vire de costas para os outros. Sem a plateia na sua frente, o alerta tende a baixar, e você volta a enxergar a criança.
  2. Abaixe na altura dela. Você deixa de falar de cima e deixa de falar para quem está em volta.
  3. Diga 1 frase só, em voz baixa. Uma, não um discurso.

De costas para a plateia, você volta a ser a pessoa que ela conhece de casa. A sequência é uma proposta prática da casa, apoiada na leitura do estudo acima, e não um protocolo testado em pesquisa.

A exceção: se a criança está se machucando ou machucando alguém, primeiro tire do lugar. A frase vem depois.

O que dizer, e o que evitar, na hora?

Diga uma frase que avise que você está ali e que o assunto vai ser resolvido depois. Evite as frases que falam com a plateia usando a criança como destinatária.

Em vez deDiga, em voz baixaPor quê
"Olha todo mundo olhando para você""Eu tô aqui. Quando você acalmar, a gente resolve."A primeira entrega a criança ao julgamento dos outros; a segunda devolve a sua presença
"Que feio, para com isso agora""Eu vi que você ficou com raiva. Vem cá."Nomear o que ela sente responde à parte que busca consolo
"Em casa a gente conversa", dito alto e com ameaça"A gente conversa ali, só nós."O conteúdo é parecido; o tom e o volume mudam o recado
"Tá bom, toma, mas para de chorar"1 das 3 frases acima, e esperaO agrado encerra a cena e ensina o caminho para a próxima

Repare que as 3 frases da coluna do meio têm algo em comum: nenhuma foi escrita para quem está assistindo.

E as pessoas que ficam olhando?

Elas quase nunca estão pensando o que o seu alerta diz que estão. Boa parte de quem olha já viveu a mesma cena, e a maioria volta ao próprio assunto em instantes. Não há estudo citado aqui para essa afirmação: é observação.

O que vale guardar são 2 ideias simples:

  • Você não deve uma educação exemplar a quem está na festa. Deve presença à criança que está no chão.
  • O julgamento que mais pesa costuma ser interno. A voz que diz "estão vendo que eu não dou conta" raramente é de alguém da festa. Costuma ser mais antiga.

O que a plateia aciona em você, nas três camadas?

No BrainPower, lemos o comportamento em três camadas: o consciente, a emoção e o inconsciente. A reação à birra em público aparece nas três.

  1. No consciente, ela aparece como regra de educação: "criança não pode fazer isso na frente dos outros", "vão achar que não tem limite".
  2. Na emoção, aparece a vergonha, e o corpo acelerado. Em 2005, Michael Lorber e Susan O'Leary observaram 93 mães com filhos pequenos em laboratório: a leitura negativa que a mãe fazia do comportamento da criança explicava a passagem da emoção para a disciplina exagerada, e a aceleração do coração previa essa disciplina por conta própria.
  3. No inconsciente, mora a pergunta que não foi você quem escolheu: o que acontecia na sua casa quando uma criança "dava vexame" na frente dos outros? Quem passava vergonha, e o que vinha depois?

Por isso a mesma pessoa que tem toda a paciência na sala de casa perde a mão no salão de festas. Não é falta de informação. É um automático de proteção, aprendido cedo, que entra em cena quando há plateia. Só que quem paga é a criança, que encontra uma pessoa diferente toda vez que tem gente olhando.

Se o seu ponto fraco é o grito, e não só em público, o artigo Como parar de gritar com os filhos abre esse mecanismo com mais calma.

Perguntas que as pessoas fazem

Como lidar com birra em público sem gritar nem ceder?

Vire de costas para quem está olhando, abaixe na altura da criança e diga 1 frase só, em voz baixa, como "Eu tô aqui. Quando você acalmar, a gente resolve". Depois espere. Gritar e ceder são 2 jeitos de acabar com a cena, e nenhum dos 2 cuida da criança.

Por que eu perco a paciência mais rápido na frente dos outros?

Porque o corpo responde ao julgamento. Na revisão de 208 estudos de Dickerson e Kemeny (2004), as tarefas incontroláveis e avaliadas por outras pessoas foram as que mais elevaram o cortisol. Uma birra com plateia reúne as 2 condições.

Devo ignorar a birra quando acontece em público?

Ignorar a plateia, sim. Ignorar a criança, não é o que propomos: no estudo de Potegal e Davidson (2003), com 335 crianças, a birra tinha raiva e também busca de consolo. Ficar por perto, em silêncio, depois de 1 frase curta, é diferente de virar as costas para ela.

Posso tirar a criança do lugar durante a birra?

Pode, e em um caso deve: se ela está se machucando ou machucando alguém, tirar do lugar vem antes de qualquer frase. Fora disso, levar para um canto mais vazio ajuda os 2 lados, porque reduz a plateia.

Em que idade a birra é mais comum?

O estudo citado neste artigo analisou crianças de 18 a 60 meses, ou seja, de 1 ano e meio a 5 anos, e observou que a raiva de alta intensidade diminuiu com a idade. Para dúvidas sobre o desenvolvimento de uma criança específica, converse com o pediatra.

Quando procurar ajuda profissional?

Se as birras vêm com machucados frequentes, duram muito ou preocupam você de outro jeito, fale com o pediatra. E se o que preocupa é a sua própria reação, que foge do seu controle, vale conversar com um profissional de saúde. Este artigo fala de padrões de comportamento do dia a dia e não substitui esse acompanhamento.

O que fica

Na birra em público, a criança é a mesma de casa. Quem muda é o adulto, porque o corpo dele lê a plateia como ameaça e passa a proteger a própria imagem. Isso não é defeito. É proteção.

O gesto que desfaz a troca é pequeno: de costas para os outros, na altura dela, 1 frase em voz baixa. A criança não precisa da pessoa que você vira na festa. Precisa da que ela já conhece.

Se quiser ver quais padrões estão operando em você agora, o diagnóstico Inside Brain é gratuito e faz esse mapa em poucos minutos. Para entender por que o pior da gente sai justamente com quem a gente mais ama, leia sobre a raiva com quem você ama. E, se a vergonha de ser visto errando parece mais antiga do que a sua vida de pai ou mãe, veja de onde vem o medo herdado.

Fontes

  • Dickerson, S. S. e Kemeny, M. E. (2004). Acute stressors and cortisol responses: A theoretical integration and synthesis of laboratory research. Psychological Bulletin, 130(3), 355-391. doi.org/10.1037/0033-2909.130.3.355
  • Potegal, M. e Davidson, R. J. (2003). Temper tantrums in young children: 1. Behavioral composition. Journal of Developmental and Behavioral Pediatrics, 24(3), 140-147. doi.org/10.1097/00004703-200306000-00002
  • Lorber, M. F. e O'Leary, S. G. (2005). Mediated paths to overreactive discipline: Mothers' experienced emotion, appraisals, and physiological responses. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 73(5), 972-981. doi.org/10.1037/0022-006X.73.5.972

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Assinado

André Buric

Neurocientista, mestre em Psicologia e Neurociência da Saúde Mental pelo King's College London. Fundador do BrainPower.

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