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Como pensar fora da caixa: ninguém pensa fora de um lugar onde nunca esteve

André Buric
9 min de leitura

O que é pensar fora da caixa?

É pensar fora do jeito padrão de pensar de um lugar. A caixa é uma metáfora do mundo de que você faz parte: os paradigmas e os pensamentos já estabelecidos ali.

O André Buric conta de onde veio a pergunta: "Quando eu estava no mundo corporativo, o que eu mais ouvia era uma pessoa falando para a outra: você tem que pensar fora da caixa. [...] Mas o que é essa caixa? Como você pode pensar fora da caixa?" (minuto 0:02)

A resposta dele:

"A caixa seria como se fosse uma metáfora do mundo que você faz parte. Então, se você trabalha numa empresa X, a caixa seria a empresa X. E as pessoas dizem: pensa fora da caixa, pense fora dos paradigmas que a gente estabeleceu aqui dentro. Os paradigmas estabelecidos, os pensamentos estabelecidos formam a caixa, o jeito padrão das pessoas pensarem." (minuto 0:59)

Este tema em vídeo, com André Buric

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Por que é tão difícil pensar fora da caixa?

Porque ninguém pensa fora de um lugar onde nunca esteve. Para ter uma ideia de fora, você precisa de algum estímulo de fora; sem isso, a cabeça só tem o material da própria caixa.

O André usa uma imagem para mostrar o tamanho do pedido:

"Você está agora no planeta Terra. Pense fora do planeta Terra. Como é que eu posso pensar fora do planeta Terra, se eu estou no planeta Terra? E é exatamente esse o primeiro ponto: quando você pede para uma pessoa pensar fora da caixa, não é tão simples assim. [...] Isso pressupõe uma visão de fora da caixa." (minuto 1:25)

E um exemplo de empresa: se alguém pede "traz algum exemplo de como os xampus são vendidos na Rússia", a resposta honesta é "eu nunca fui para a Rússia, não sei". E como saber? "Simplesmente indo para a Rússia. Você tem que viver fora da caixa, você tem que experienciar alguma coisa fora da caixa para você conseguir trazer essa experiência para cá" (minuto 3:14).

Mandar alguém pensar fora da caixa funciona?

Pouco. Num experimento clássico de 1981, avisar as pessoas de que a solução estava fora do quadrado não bastou para que elas resolvessem o problema de forma rápida e direta.

Robert Weisberg e Joseph Alba publicaram o estudo no Journal of Experimental Psychology: General. Eles usaram o problema dos 9 pontos, em que é preciso ligar 9 pontos dispostos num quadrado, e a saída exige passar as linhas para fora dos limites desse quadrado. O que o resumo relata:

  1. O aviso foi dado com todas as letras: as pessoas ouviram que só resolveriam o problema estendendo as linhas para fora do quadrado.
  2. O aviso não trouxe a solução rápida e direta que se esperava.
  3. O que ajudou de verdade foi dar informação relativamente detalhada sobre a solução.
  4. A conclusão dos autores: pesa mais o conhecimento específico sobre o problema do que a ideia de "sair do quadrado".

Ou seja: "pensa fora da caixa" é uma ordem sem material. O que faz a ideia nova aparecer é conhecimento que você ainda não tinha, o mesmo que o André chama de repertório.

Viver fora da caixa aumenta a criatividade?

Sim, e há estudo com número. Pesquisas de William Maddux, Adam Galinsky e colegas ligam viver outra cultura, e não só passar por ela, a mais criatividade.

EstudoQuem foi estudadoO que encontrou
Leung, Maddux, Galinsky e Chiu, 2008Pessoas com mais ou menos experiência em outras culturasQuanto mais ampla a experiência multicultural, melhor o desempenho criativo (resolver problemas por percepção súbita, associar ideias distantes, gerar ideias). O ganho podia depender de quanto a pessoa se abria à cultura estrangeira
Maddux e Galinsky, 20095 estudos, com alunos de graduação e de mestrado em administração, nos Estados Unidos e na EuropaO tempo morando fora do país se relacionou com mais criatividade; o tempo viajando, não. O quanto a pessoa se adaptou à outra cultura explicou essa ligação
Godart, Maddux, Shipilov e Galinsky, 201511 anos (21 temporadas) de coleções das principais casas de moda do mundoA experiência profissional dos diretores criativos no exterior previu a nota de criatividade das coleções. A profundidade dessa experiência foi o que mais pesou

Ou seja: não basta o carimbo no passaporte. O que muda o jeito de pensar é ficar tempo suficiente num lugar diferente para precisar se adaptar a ele. É a versão de pesquisa do que o André diz no vídeo: viver um pouco fora da caixa, "mesmo que por um dia, dois, três, uma semana" (minuto 1:46).

Um limite honesto: os estudos medem associação entre experiência e criatividade em grupos específicos (alunos, executivos da moda). Eles não provam que qualquer viagem curta transforma qualquer pessoa.

Como pensar fora da caixa, então?

Vivendo um pouco fora dela. As ideias novas vêm de repertório: algo que você viu, viveu ou aprendeu em outro lugar e trouxe de volta.

"A pessoa tem que conseguir vivenciar, mesmo que por um dia, dois, três, uma semana, um pouco fora da caixa. Vivenciar uma nova cultura, de repente fazer um treinamento, de repente passar um dia no campo. [...] Aí, sim, ela tem estímulos, ela tem repertório para pensar fora da caixa." (minuto 1:44)

Onde buscar esse repertório, a partir dos exemplos do André:

Onde buscarExemplo
Ir até a ponta do próprio negócioNuma empresa que vende xampu, passar uma semana acompanhando a venda numa farmácia ou num supermercado (minuto 1:55)
Viver outra culturaUm período em outro país, ou um projeto com gente de outro setor
Aprender algo novoUm treinamento fora da sua área
Questionar o senso comumExpor-se a ideias diferentes das que circulam no seu meio

Um roteiro para começar, a partir do vídeo e dos estudos (a montagem é da casa):

  1. Escolha uma caixa vizinha. Um setor, uma cidade, um tipo de cliente que você não conhece por dentro.
  2. Fique tempo suficiente para estranhar. No estudo de 2009, o que contou foi morar e se adaptar, não passar de visita.
  3. Anote 3 coisas que lá são feitas de outro jeito. Sem julgar se é melhor ou pior.
  4. Volte e pergunte: "por que, aqui dentro, a gente faz do nosso jeito?".
  5. Leve 1 diferença para testar no seu trabalho ou na sua rotina.

O que responder quando pedem para você pensar fora da caixa?

Peça para viver um pouco fora dela. A ordem sozinha não produz ideia; a experiência produz.

A resposta que o André sugere: "Ótimo, então me permita vivenciar um pouco fora da caixa, para eu trazer os estímulos, para eu trazer o repertório que eu aprendi fora da caixa, pra gente poder repensar os nossos paradigmas, pra gente mudar um pouco o jeito que a coisa é feita aqui dentro desta caixa" (minuto 2:26).

Ele vai além: "Simplesmente pedir para pensar fora da caixa é um jeito, talvez preguiçoso, de dizer: eu não gostei muito; traz uma ideia um pouco diferente" (minuto 4:18).

E se eu lidero um time que precisa pensar fora da caixa?

Tire o time da caixa antes de cobrar ideias. "Coloca todo mundo pra rua para participar de coisas diferentes, fazer treinamentos. [...] E com esses pensamentos diferentes, eles de repente podem voltar e mudar sim os paradigmas, mudar o jeito de pensar" (minuto 4:28).

O que a caixa tem a ver com a sua vida, fora do trabalho?

Tudo. A caixa mais difícil de enxergar é a dos próprios padrões: muita gente faz as mesmas coisas por anos, sabendo que não é o que quer, porque o automático decide antes.

Nas palavras do André: "Muitas pessoas fazem exatamente as mesmas coisas por anos e anos, sabendo que não é aquilo que gostariam de fazer na vida delas, simplesmente porque elas não controlam o cérebro delas e elas são dominadas pelo medo que elas sentem" (minuto 3:41).

Esse automático não é inimigo: ele repete o que um dia funcionou para proteger você. O problema é quando o padrão de proteção vira a caixa inteira. Sair dela pede a mesma coisa que sair da caixa da empresa, um estímulo de fora que mostre o que o padrão esconde:

Perguntas que as pessoas fazem

Viajar ajuda a pensar fora da caixa?

Ajuda mais quando é viver do que quando é passear. No estudo de Maddux e Galinsky, de 2009, o tempo morando fora se ligou a mais criatividade; o tempo viajando, não. O que pesou foi se adaptar à outra cultura.

Criatividade se aprende?

A matéria-prima dela, sim: o repertório. Quanto mais experiências diferentes você acumula, mais material a cabeça tem para combinar quando precisa de uma ideia nova.

Por que as melhores ideias aparecem fora do trabalho?

Porque fora do trabalho você está, por algumas horas, fora da caixa. O estímulo diferente da viagem, da conversa ou do treinamento é o material que a ideia nova precisava.

Como estimular um time a pensar fora da caixa?

Levando o time para fora antes de cobrar: visitar a ponta do negócio, conhecer outros setores, fazer treinamentos. Pedir a ideia sem dar o estímulo costuma devolver mais do mesmo.

Qual a diferença entre pensar fora da caixa e ampliar a caixa?

Na leitura da casa, a partir do vídeo, as 2 coisas andam juntas: você sai da caixa para buscar repertório e, quando volta, a caixa já não é a mesma. O jeito de pensar do lugar muda porque alguém trouxe algo de fora.

O que fica

A caixa é o jeito padrão de pensar de um lugar. Ninguém pensa fora dela por ordem, porque ninguém pensa fora de um lugar onde nunca esteve. Até o aviso "a saída está fora do quadrado" não resolveu o problema dos 9 pontos.

O caminho é repertório: viver um pouco fora da caixa, tempo suficiente para se adaptar, e trazer o que aprendeu de volta. Isso vale para a empresa e vale para os padrões que decidem a sua rotina.

Se quiser ver qual é a caixa dos seus próprios padrões, o diagnóstico Inside Brain é gratuito e faz esse mapa em poucos minutos. Para trabalhar os automáticos que mantêm você no mesmo lugar, o BrainLAB é o programa da casa. E o Mergulho no Inconsciente é onde se olha a caixa de fora.

Fontes

  • Buric, A. (2016). Como Pensar Fora da Caixa?? | Academia Cerebral. Canal BrainPower no YouTube. youtube.com/watch?v=qJB-vOxWNn4
  • Weisberg, R. W. e Alba, J. W. (1981). An examination of the alleged role of "fixation" in the solution of several "insight" problems. Journal of Experimental Psychology: General, 110(2), 169-192. doi.org/10.1037/0096-3445.110.2.169
  • Leung, A. K., Maddux, W. W., Galinsky, A. D. e Chiu, C. (2008). Multicultural experience enhances creativity: The when and how. American Psychologist, 63(3), 169-181. doi.org/10.1037/0003-066X.63.3.169
  • Maddux, W. W. e Galinsky, A. D. (2009). Cultural borders and mental barriers: The relationship between living abroad and creativity. Journal of Personality and Social Psychology, 96(5), 1047-1061. doi.org/10.1037/a0014861
  • Godart, F. C., Maddux, W. W., Shipilov, A. V. e Galinsky, A. D. (2015). Fashion with a Foreign Flair: Professional Experiences Abroad Facilitate the Creative Innovations of Organizations. Academy of Management Journal, 58(1), 195-220. doi.org/10.5465/amj.2012.0575

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André Buric

Assinado

André Buric

Neurocientista, mestre em Psicologia e Neurociência da Saúde Mental pelo King's College London. Fundador do BrainPower.
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