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Vergonha: de onde vem e o que ela faz com o seu cérebro

André Buric
11 min de leitura

Como a vergonha aparece, e por que justo na hora mais importante?

A vergonha aparece quando você se expõe diante de alguém e se vê abaixo do que esperava de si. Ela vem nos momentos que importam, porque é neles que você mais se expõe.

O André Buric abre o vídeo com uma cena conhecida:

"Imagina só que você acabou de chegar num novo ambiente que é importante, de repente um compromisso profissional, e aí você se depara com um monte de gente que você não conhece. [...] Grande parte das pessoas não sabe o que fazer nessa situação, fica meio sem graça, meio com vergonha, pega o celular e começa a mexer, meio que como uma fuga, para que de fato ela busque o conforto, visto que nela mesma não há conforto." (minuto 0:00)

Se essa fuga para a tela é conhecida, o artigo sobre como parar de mexer no celular mostra o que acontece 1 segundo antes de a mão chegar nele.

E ele descreve o corpo no momento em que a vergonha toma conta: "Mãos começam a suar, o rosto fica vermelho, a boca fica seca, e aí o cérebro não lembra as coisas direito. As respostas nunca vêm, e a pessoa trava. Ela deixa de ser ela mesma bem na hora mais importante" (minuto 1:12).

Ela não aparece só na timidez. O André lembra situações em que a energia cai até em quem fala bem (minuto 2:38):

  • na hora de dizer o próprio preço, "porque ela não gosta de cobrar" (minuto 2:50);
  • na hora de se impor;
  • na hora de fazer algo contrário ao que a maioria faz.

Em resumo, o que este artigo mostra:

  • As 2 origens da vergonha: o outro e a comparação com a sua própria expectativa.
  • O que a ciência mediu: uma revisão de 208 estudos sobre o peso da avaliação dos outros, e um estudo de imagem do cérebro com 14 pessoas.
  • Para que ela serve e por que, quando pesa demais, faz o contrário.
  • 3 frentes para diminuir o peso dela, e a história de como o André se preparou, aos 29 anos, para a apresentação mais importante da carreira.

Este tema em vídeo, com André Buric

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De onde vem a vergonha?

De 2 elementos: a presença do outro e a comparação com a sua própria expectativa. Sem um dos dois, a vergonha não aparece.

OrigemO que éNas palavras do AndréMinuto do vídeo
1. O outroA vergonha sempre pressupõe alguém vendo, ou que poderia ver"Ninguém sente vergonha sozinho."5:01
2. A racionalizaçãoVocê compara o que acabou de fazer com o que esperava de si, e se vê inferior"É a própria pessoa se julgando inferior frente à própria expectativa."6:12

Por que a vergonha precisa de outra pessoa?

Porque a vergonha nasce da relação com o outro: do que você pensa da outra pessoa e do que ela pode pensar de você. "Ninguém fica com vergonha do que acabou de fazer ali sozinha, num quarto fechado em que ninguém viu" (minuto 5:08).

A ciência mediu o peso desse olhar. Em 2004, Sally Dickerson e Margaret Kemeny, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, reuniram 208 estudos de laboratório sobre situações de pressão e a resposta do cortisol, um hormônio que o corpo libera sob estresse. Publicaram a análise na revista Psychological Bulletin. O que encontraram:

  • nem toda pressão eleva o cortisol: o efeito variou muito de uma tarefa para outra;
  • as tarefas que mais pesaram foram as com ameaça de avaliação social, em que o desempenho podia ser julgado de forma negativa por outras pessoas, e as que a pessoa não conseguia controlar;
  • quando as 2 coisas vinham juntas, a resposta foi a maior e a volta ao normal, a mais demorada.

Ou seja: para o corpo, o que pesa não é só fazer a tarefa, é o risco de julgamento. É o que o André diz com outras palavras: sem alguém olhando, não há vergonha.

O que a expectativa tem a ver com a vergonha?

Tudo. A vergonha se acende quando o que aconteceu fica abaixo da imagem que você queria passar, e quem fixou essa imagem foi você.

"Você estabeleceu que você tem essa expectativa: eu quero chegar lá e eu quero gerar essa impressão, eu quero gerar esse impacto. [...] E aí, quando você se compara com a sua própria expectativa, fala: cara, que experiência deplorável, que coisa que eu acabei de fazer, não deveria ser assim, as pessoas esperavam muito mais de mim. [...] É exatamente um processo de racionalização." (minuto 6:21)

O André resume com uma imagem: "Você não consegue ver uma zebra no cantinho ali falando: nossa, eu esperava agir de uma forma diferente" (minuto 7:18). A vergonha depende de pensar sobre si, e a pesquisa diz o mesmo com outro nome: ela é chamada de emoção autoconsciente, a que nasce de a pessoa se avaliar.

Para que serve a vergonha?

Para nos manter no grupo. A vergonha é um sentimento que regula o comportamento para que a pessoa continue pertencendo; o problema começa quando a carga é tão forte que ela afasta em vez de aproximar.

O André explica que a vergonha é considerada um sentimento moral (minuto 10:01), e isso está na pesquisa. Em 2007, June Tangney, Jeffrey Stuewig e Debra Mashek, da Universidade George Mason, nos Estados Unidos, revisaram o que se sabia sobre as emoções morais na Annual Review of Psychology. Segundo a revisão:

  • as emoções morais ligam o que a pessoa acredita ser certo ao que ela faz;
  • a vergonha forma, com a culpa e o constrangimento, um trio de emoções morais negativas e autoconscientes;
  • do lado positivo, entram a gratidão, o orgulho e a elevação (a emoção de se comover com um bom exemplo).

É o mesmo grupo que o André cita no vídeo: orgulho e gratidão de um lado, vergonha e constrangimento do outro. A leitura dele sobre a função: quando alguém age muito diferente do grupo, o grupo estranha, e a vergonha é o freio que evita a exclusão.

"O problema é quando a gente cria uma carga muito forte, e exatamente essa adaptação, que deveria nos trazer para dentro do grupo com mais proximidade, acaba nos afastando, fazendo com que a gente fique preso em uma prisão própria" (minuto 11:17).

Quando essa carga vira hábito, ela aparece em gestos pequenos do dia a dia, como o de se desculpar antes de ocupar espaço: o artigo sobre pedir desculpa por tudo mostra de onde isso vem.

O que a vergonha faz com o cérebro?

Na leitura do André, ela compromete por alguns instantes o pensar, o lembrar e o aprender. Por isso a resposta certa só aparece depois que a situação passou.

O André explica que a sobrecarga da vergonha atinge principalmente 2 regiões (minuto 13:24):

RegiãoFunções que o André citaO que você sente na hora
Lobo frontalPensamento, memória, comportamento"Eu queria dizer algo e não lembrei"; "agi de um jeito que não era eu"
Lobo temporalAudição, aprendizado, emoçõesVocê só ouve o que é negativo; não consegue aprender nada naquele momento

Um estudo de imagem do cérebro viu essas 2 regiões em ação. Em 2014, Petra Michl e colegas, da Universidade de Munique, na Alemanha, publicaram na revista Social Cognitive and Affective Neuroscience um estudo com 14 voluntários saudáveis, que recebiam estímulos ligados à vergonha, à culpa ou neutros dentro de um aparelho de ressonância magnética:

  • a vergonha ativou áreas do lobo temporal, como acontece também com a culpa;
  • e ativou áreas próprias no lobo frontal;
  • ao imaginar situações de vergonha, áreas frontais e temporais responderam em homens e mulheres.

Um limite honesto: foram 14 pessoas, num estudo-piloto, e ele mostra que essas áreas trabalham durante a vergonha, não que elas falham. A ideia de que a sobrecarga trava a memória na hora é a leitura do André, e casa com o que muita gente vive: a resposta certa aparece depois que a conversa acabou.

Como diminuir o peso da vergonha?

Diminuindo a preocupação com a imagem e aumentando a confiança. A vergonha não precisa sumir para você agir, do mesmo jeito que a coragem não depende de o medo sumir.

"A coragem não é ausência de medo, é simplesmente você agir apesar do medo. [...] Da mesma forma, a vergonha não precisa necessariamente ser eliminada para que a pessoa realmente consiga entrar em ação." (minuto 4:09)

O que o André propõe, em 3 frentes:

  1. Menos preocupação com a imagem. "Quanto menor a preocupação com a imagem e com o que as pessoas vão pensar a respeito de uma determinada atitude que a gente tem, menor será o impacto da vergonha" (minuto 15:41).
  2. Mais autoconfiança, treinada. "Tudo bem, eu não sei tudo, eu não conheço tudo, mas eu vou dar um jeito, mesmo que não saia do jeito que eu gostaria" (minuto 16:03). Para ele, a confiança é o grande antídoto, e "isso é algo que pode sim ser treinado" (minuto 16:25). Um ponto de partida é o exercício para se sentir autoconfiante em minutos.
  3. Não fazer pela primeira vez na frente de muita gente. Quando a situação importa e dá para ensaiar, ensaie antes, com poucas pessoas (minuto 18:42).

A frente 3 conversa com o estudo dos 208: se o que mais pesa é a avaliação dos outros numa situação que você não controla, ensaiar antes devolve um pouco de controle e tira a primeira avaliação da frente do público grande.

O que o André fez na apresentação mais importante da carreira?

Ele ensaiou antes, conversando com as pessoas. Aos 29 anos, depois de 1 ano desenvolvendo um projeto importante numa empresa, o André teria de apresentá-lo à empresa inteira numa convenção, talvez o mais jovem a falar ali (minuto 16:58).

"Eu tinha tudo para sentir vergonha, absolutamente tudo. Estava vulnerável, e a vulnerabilidade é a janela que abre [...] para a vergonha entrar. [...] Eu conversei com várias pessoas além do núcleo, falei um pouco mais sobre o projeto, peguei opinião, e eu vi que a reação era absolutamente de ficar de queixo caído. [...] Isso me deu um senso de segurança tão significativo que, na hora da apresentação, eu estava absolutamente tranquilo." (minuto 17:50)

No fim, a plateia aplaudiu de pé, e ele chamou o time inteiro para o palco (minuto 19:52). A lição que ele tira: "Quando você faz algo pela primeira vez em público, fica muito mais difícil, você fica muito mais vulnerável" (minuto 20:15). Ensaiar antes é uma das formas de fortalecer a confiança.

Qual a diferença entre vergonha e timidez?

A timidez é um jeito mais retraído de estar com as pessoas, que aparece em muitas situações. A vergonha é o momento em que você se expõe e se vê abaixo da sua expectativa.

TimidezVergonha
O que éUm jeito de estar com as pessoasUm momento de exposição
Quando apareceEm muitas situações sociaisQuando alguém vê e você se acha abaixo do esperado
Quem senteQuem se vê como uma pessoa tímidaAté quem não se vê assim, como na hora de dizer o preço
O que ajudaEntender o que o alarme protegeMenos peso na imagem, mais confiança, ensaio antes

Se a timidez é o que mais trava, o teste de timidez é gratuito e mostra o quanto ela governa as suas escolhas, e o artigo como perder a timidez explica o que o cérebro está protegendo quando você trava.

Perguntas que as pessoas fazem

Por que o rosto fica vermelho quando sinto vergonha?

Porque a vergonha não fica só na cabeça: ela mexe com o corpo inteiro, com suor nas mãos, rosto vermelho e boca seca (minuto 1:12). Uma revisão de 208 estudos (2004) mostrou que a avaliação dos outros é das situações que mais mexem com o hormônio do estresse.

Por que dá branco na hora de falar?

Na leitura do André, porque a sobrecarga da vergonha compromete por instantes o pensamento e a memória. A resposta existe; o acesso a ela é que fica travado naquele momento, e por isso ela aparece depois.

Dá para eliminar a vergonha de vez?

Não é preciso. A vergonha é uma emoção moral, com a função de manter você no grupo. O que se treina é o peso dela: menos preocupação com a imagem, mais confiança e ensaio antes do que importa.

A vergonha é um sentimento só humano?

O André defende que sim, com a imagem da zebra: ela depende de a pessoa se avaliar diante de uma expectativa. A pesquisa chama a vergonha de emoção autoconsciente, justamente porque nasce dessa avaliação de si.

Por que sinto vergonha de cobrar pelo meu trabalho?

Porque dizer o preço é se expor diante do outro e da sua própria expectativa sobre o que vale o que você faz. Quando você não enxerga o próprio valor, o preço sai mais baixo.

O que fica

A vergonha vem de 2 fontes: o outro e a comparação com o que você esperava de si. Ela existe para manter você no grupo e, quando pesa demais, faz o contrário: na leitura do André, trava a memória, muda o seu jeito e afasta.

Ela não precisa sumir para você agir. Menos preocupação com a imagem, mais confiança e o ensaio antes do que importa diminuem o peso dela. Nas palavras do André, não existe crescimento "sem exposição" (minuto 1:46).

Para ver qual padrão está por trás da sua vergonha, o diagnóstico Inside Brain é gratuito e faz esse mapa em poucos minutos. Para treinar a confiança que é o antídoto dela, o Laboratório Confiança Interna é o programa da casa. E o Mergulho no Inconsciente é onde se descobre de onde vem a régua com que você se julga.

Fontes

  • Buric, A. (2022). VERGONHA: De Onde Surge e Como Eliminar?. Canal BrainPower no YouTube. youtube.com/watch?v=WJEJmJHlJ6s
  • Dickerson, S. S. e Kemeny, M. E. (2004). Acute stressors and cortisol responses: A theoretical integration and synthesis of laboratory research. Psychological Bulletin, 130(3), 355-391. doi.org/10.1037/0033-2909.130.3.355
  • Tangney, J. P., Stuewig, J. e Mashek, D. J. (2007). Moral emotions and moral behavior. Annual Review of Psychology, 58, 345-372. doi.org/10.1146/annurev.psych.56.091103.070145
  • Michl, P., Meindl, T., Meister, F., Born, C., Engel, R. R., Reiser, M. e Hennig-Fast, K. (2014). Neurobiological underpinnings of shame and guilt: A pilot fMRI study. Social Cognitive and Affective Neuroscience, 9(2), 150-157. doi.org/10.1093/scan/nss114

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André Buric

Assinado

André Buric

Neurocientista, mestre em Psicologia e Neurociência da Saúde Mental pelo King's College London. Fundador do BrainPower.
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