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Pessimismo tem cura? O ciclo do foco que treina o cérebro para o pior

André Buric
11 min de leitura

Pessimismo tem cura?

Pessimismo não é doença, então não se fala em cura: é um padrão, o automático que procura o perigo, e padrão treinado se treina de novo.

O cérebro que foca no lado ruim fica cada vez melhor em encontrar o lado ruim. E o mesmo vale para o lado bom. Essa é a tese do vídeo que André Buric gravou em 2020, e é o que 4 estudos ajudam a medir neste artigo.

O vídeo abre com a cena que todo mundo conhece: "Cara, certeza que vai dar errado. Olha essa chuva. Vai dar tudo errado, não tem como dar certo. [...] Pessimismo? Não, isso é realismo" (minuto 0:05).

E faz as perguntas que levam a essa busca:

  • O otimismo pode ser aprendido, ou a gente nasce otimista?
  • Quem não nasceu otimista vai ser pessimista para o resto da vida?
  • E a mais importante: o pessimismo tem cura?

Este tema em vídeo, com André Buric

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Por que o cérebro procura o lado ruim primeiro?

Porque, para o cérebro, o ruim pesa mais do que o bom. É um automático que protege: perder um perigo de vista sempre custou mais caro do que perder uma boa notícia.

Em 2001, Roy Baumeister e 3 colegas revisaram a pesquisa sobre o assunto na revista Review of General Psychology. O que encontraram, em quase todas as áreas estudadas:

  • Acontecimentos ruins marcam mais do que os bons, do dia a dia aos grandes eventos da vida.
  • A informação ruim é processada com mais cuidado do que a boa.
  • Uma impressão ruim se forma mais rápido e resiste mais a ser desmentida.
  • Quase não apareceram exceções em que o bom pesasse mais.

Ou seja: todo cérebro já vem com o alarme mais sensível ao ruim. O pessimismo não é esse alarme; é esse alarme treinado além da conta, até virar o jeito padrão de olhar. O automático não é o inimigo. O problema é ele ter ficado sozinho no comando.

Por que quem é pessimista se diz realista?

Porque escolhe um lado da realidade e chama esse lado de "a realidade". Toda situação tem um lado bom e um ruim; quem é pessimista procura o ruim e acredita que só ele é real.

"Geralmente os pessimistas não gostam de dizer isso. Eles preferem ser chamados de realistas." (minuto 1:30) "Mas é a realidade vista sob o ângulo das coisas ruins, porque toda realidade, todo fato, todas as pessoas, todas as situações têm sim um lado positivo e um lado negativo." (minuto 8:55)

A diferença aparece diante do mesmo problema, na leitura do André:

Diante de um problemaQuem tende ao otimismoQuem tende ao pessimismo
O que procuraUma nova rota para o mesmo objetivoA justificativa de por que vai dar errado
O que faz com as pessoasAtrai e engajaAfasta
O que o cérebro treinaEncontrar alternativasEncontrar defeitos, o "pelo em ovo"

Para o André, é por isso que o otimismo pesa tanto em quem lidera e empreende (minuto 2:11): quem quer levar pessoas para uma visão precisa achar a rota nova quando o desafio aparece, e é essa rota que conecta as pessoas.

O que é o ciclo do foco?

É a sequência que transforma aquilo em que você presta atenção em resultado, e o resultado em mais atenção. Ela pode girar para o lado bom ou para o lado ruim.

O ciclo, na ordem em que o André explica (minuto 3:33):

  1. O foco gera um pensamento.
  2. O pensamento gera um sentimento.
  3. O sentimento muda o comportamento.
  4. O comportamento, a ação, leva a um resultado.
  5. O resultado, ou a falta dele, afeta a motivação.
  6. A motivação define o próximo foco, e o ciclo recomeça.

Como o ciclo gira para o pessimismo?

Ele começa num foco que drena energia. Sem energia, a tarefa começa sem vontade, a chance de dar errado aumenta e, quando dá errado, a pessoa procura os porquês que confirmam o pessimismo.

"Você tende a focar nas perguntas de 'por que foi que eu errei', 'por que é sempre assim comigo'. Um certo coitadismo, procurando respostas que retroalimentem o seu pessimismo. [...] Uma bola de neve que faz você focar em coisas que tiram ainda mais a sua motivação." (minuto 4:59)

O mesmo ciclo gira para o outro lado: quem mantém o foco num objetivo vê resultado, ganha energia e mantém o foco (minuto 5:21).

Como o pessimismo vira um padrão do cérebro?

Pela repetição. O cérebro adulto muda com o que faz todo dia: as áreas mais usadas se fortalecem. Quem treina o medo e a apreensão fica forte justamente nisso.

É o mesmo caminho de todo padrão: o mapa dos padrões de comportamento mostra os mais comuns e do que cada um costuma proteger.

"É igual na musculação. Se você vai à academia e treina só o seu bíceps, você vai ficar com o bíceps enorme. Isso é positivo? Obviamente não, porque você desenvolveu apenas uma área. A mesma coisa acontece no seu cérebro: se você estimula as áreas de risco, de medo, de apreensão, de coisas negativas, você desenvolve apenas este padrão." (minuto 6:17)

Não há estudo que meça o "bíceps do pessimismo". O que existe é a prova de que o cérebro adulto muda com o uso. Em 2011, Katherine Woollett e Eleanor Maguire acompanharam aprendizes de taxista em Londres, que passam anos decorando as ruas da cidade:

O que o estudo fezO número
Aprendizes de taxista acompanhados79
Tempo entre o 1º e o 2º exame do cérebro3 a 4 anos
Aprendizes que se formaram39
Pessoas de fora, para comparação31
Quem ganhou volume na região da memória de lugaresSó quem se formou
Horas de treino por semana de quem se formouO dobro de quem não se formou

Ou seja: o mesmo cérebro, com anos de repetição, ganhou estrutura onde foi mais usado. Quem desistiu e quem não treinou não mudou. É o princípio do bíceps: o cérebro fica bom no que repete, inclusive em procurar o pior.

O ponto final desse treino, nas palavras do André: "Ele se torna profissional exatamente naquilo que você não quer, até que chega um dia em que nada mais é positivo, nada mais dá prazer, tudo é fonte de reclamação" (minuto 7:27).

Se faz semanas que nada dá prazer e isso tira o seu sono ou o seu trabalho, procure um profissional de saúde.

Quanto do pessimismo vem de nascença?

Uma parte, e não a maior. Num estudo com 3.053 gêmeos acima de 50 anos, os genes explicaram 36% da variação no otimismo; o resto veio do que cada pessoa viveu.

Miriam Mosing e colegas publicaram o estudo em 2009, na revista Behavior Genetics, com gêmeos da Austrália. Comparar gêmeos idênticos e não idênticos permite separar o peso dos genes do peso da vida. O resultado:

  • 36% da variação no otimismo foi explicada por fatores genéticos.
  • O restante foi atribuído ao ambiente que cada gêmeo viveu de forma própria, e não ao que os 2 dividiram em casa.

Ou seja: há quem nasça com o alarme um pouco mais sensível. Mas a maior parte do jogo está no que a pessoa vive e repete. É aí que o ciclo do foco trabalha. Às vezes, o alarme nem foi aprendido com a própria vida: o artigo sobre o medo herdado mostra como se aprende a temer vendo alguém temer.

Onde dá para virar o ciclo?

No foco. Pensamentos e sentimentos você não controla diretamente; para onde você dirige a atenção, sim. Por isso o começo do ciclo está na sua mão.

"A gente pode não conseguir controlar sentimentos ou pensamentos. Se eu falar para você 'não pense num elefante rosa', é bem difícil você não pensar. Agora, o foco é de escolha própria." (minuto 7:05)

O elefante rosa tem estudo. Em 1987, Daniel Wegner e colegas pediram a pessoas que passassem 5 minutos falando o que vinha à cabeça, sem pensar num urso branco. O que eles viram, em 2 experimentos:

  • As pessoas não conseguiram tirar o urso da cabeça.
  • Depois, quem tinha tentado suprimir pensou mais no urso do que quem pôde pensar nele desde o início.
  • Quem recebeu um pensamento específico para pôr no lugar pensou menos no urso depois.

Ou seja: brigar com o pensamento ruim o traz de volta. O que funciona é trocar o foco, o mesmo ponto que o André aponta como a entrada do ciclo.

O que muda, na prática:

  • No dia: perceber quando a atenção está indo para notícias, conversas e pensamentos que drenam, e escolher onde pôr o foco.
  • Nas pessoas: "Se você foca no bom de uma pessoa, o seu relacionamento é bom. Se você foca no lado ruim, o seu relacionamento será ruim" (minuto 8:09).
  • No humor: quando a irritação está alta, as manias dos outros irritam mais. É o ciclo negativo rodando, e o sinal de trocar o foco.

Quando o pensamento ruim vira conversa que não desliga na cama, o mecanismo é vizinho: veja a mente que não desliga à noite.

Otimismo se aprende?

Sim. Uma meta-análise de 29 estudos, com 3.319 participantes, mostrou que exercícios simples aumentam o otimismo, e o que mais funcionou foi imaginar o melhor futuro possível.

John Malouff e Nicola Schutte juntaram, em 2017, os estudos em que pessoas foram sorteadas para treinar o otimismo ou não. Em média, o otimismo subiu (o efeito foi de 0,41, entre pequeno e médio). O exercício que teve resultado maior se chama "o melhor eu possível".

Em 2011, Yvo Meevissen e colegas testaram esse exercício por 2 semanas. Quem imaginou o melhor eu possível ficou mais otimista do que quem imaginou as atividades do dia, já depois da 1ª sessão e ao longo das 2 semanas.

O exercício, como o estudo fez:

  1. Reserve 5 minutos por dia, durante 14 dias.
  2. Imagine a sua vida dando certo em 3 áreas: a pessoal, a das relações e a do trabalho.
  3. Veja a cena com detalhes: onde você está, com quem, o que conquistou.
  4. Repita todo dia, mesmo nos dias em que parecer bobo. É a repetição que treina o foco.

Ou seja: o mesmo treino que deixou o cérebro bom em achar o pior pode deixá-lo bom em achar a rota nova.

Como o pessimismo aparece nas três camadas?

No BrainPower, lemos o comportamento em três camadas: o consciente, a emoção e o inconsciente. O pessimismo aparece nas 3:

  1. No consciente, mora a frase "eu sou realista". Ela soa como lógica, e por isso ninguém a questiona.
  2. Na emoção, mora o desânimo que começa a tarefa já sem energia, o motor do ciclo negativo.
  3. No inconsciente, mora o alarme: em que momento esperar o pior protegeu você de uma decepção?

Por isso "pensa positivo" não funciona. Fala com o consciente, e o alarme mora mais embaixo. Quando o mesmo pessimismo volta em áreas diferentes da vida, é um padrão, não coincidência: veja por que você repete os mesmos padrões. E, se ele aparece justamente perto do que você mais quer, vale ler sobre autossabotagem.

A frase que o André repete sobre isso: "Você cria os seus padrões, e os seus padrões criam você" (minuto 9:47).

Perguntas que as pessoas fazem

Pessimismo é doença?

Não. É um padrão de foco, treinado pela repetição, e por isso pode mudar. Se, além de esperar o pior, nada dá prazer há semanas e isso tira o sono ou o trabalho, procure um profissional de saúde.

O pessimismo é genético?

Em parte. No estudo de Mosing e colegas (2009), com 3.053 gêmeos, os genes explicaram 36% da variação no otimismo. O restante veio do que cada pessoa viveu, e é aí que o foco de todo dia trabalha.

Qual a diferença entre ser realista e ser pessimista?

Quem é realista vê os 2 lados de uma situação. Quem é pessimista vê só o ruim e chama isso de realidade. Toda situação tem lado bom e ruim; escolher só um é uma escolha de foco.

Como deixar de ser pessimista?

Mudando o ponto onde o ciclo começa: o foco. Perceba para onde vai a sua atenção, troque o que drena pelo que dá energia e, por 14 dias, faça os 5 minutos do melhor eu possível.

Ser otimista é ignorar os problemas?

Não. Quem tende ao otimismo vê o problema e procura uma nova rota para o mesmo objetivo; quem tende ao pessimismo vê o problema e procura a justificativa para desistir.

Pessimismo é a mesma coisa que preocupação?

São vizinhos. O pessimismo é o hábito de esperar o pior; a preocupação é o alarme que fica rodando a mesma cena. O artigo sobre como parar de se preocupar mostra a conta que desmonta esse alarme.

O que fica

Pessimismo não é doença, nem destino. É o automático que procura o perigo, treinado pela repetição do foco até virar o jeito padrão de olhar. Os genes explicam uma parte; o resto é treino.

O ciclo vai do foco ao pensamento, ao sentimento, à ação, ao resultado, à motivação e de volta ao foco. O único ponto que você controla de saída é o primeiro.

Se quiser ver qual padrão está escolhendo o seu foco, o diagnóstico Inside Brain é gratuito e faz esse mapa em poucos minutos. O teste de sabotadores mostra qual voz interna puxa você para o pior. E o Mergulho no Inconsciente, a imersão da casa, é onde se descobre de onde vem o alarme que espera o pior.

Fontes

  • Buric, A. (2020). Pessimismo Tem Cura? | Academia Cerebral por André Buric. Canal BrainPower no YouTube. youtube.com/watch?v=h5E3OI2F8XU
  • Baumeister, R. F., Bratslavsky, E., Finkenauer, C. e Vohs, K. D. (2001). Bad is stronger than good. Review of General Psychology, 5(4), 323-370. doi.org/10.1037/1089-2680.5.4.323
  • Woollett, K. e Maguire, E. A. (2011). Acquiring "the Knowledge" of London's layout drives structural brain changes. Current Biology, 21(24), 2109-2114. doi.org/10.1016/j.cub.2011.11.018
  • Mosing, M. A., Zietsch, B. P., Shekar, S. N., Wright, M. J. e Martin, N. G. (2009). Genetic and environmental influences on optimism and its relationship to mental and self-rated health: a study of aging twins. Behavior Genetics, 39(6), 597-604. doi.org/10.1007/s10519-009-9287-7
  • Wegner, D. M., Schneider, D. J., Carter, S. R. e White, T. L. (1987). Paradoxical effects of thought suppression. Journal of Personality and Social Psychology, 53(1), 5-13. doi.org/10.1037/0022-3514.53.1.5
  • Malouff, J. M. e Schutte, N. S. (2017). Can psychological interventions increase optimism? A meta-analysis. The Journal of Positive Psychology, 12(6), 594-604. doi.org/10.1080/17439760.2016.1221122
  • Meevissen, Y. M., Peters, M. L. e Alberts, H. J. (2011). Become more optimistic by imagining a best possible self: effects of a two week intervention. Journal of Behavior Therapy and Experimental Psychiatry, 42(3), 371-378. doi.org/10.1016/j.jbtep.2011.02.012

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André Buric

Assinado

André Buric

Neurocientista, mestre em Psicologia e Neurociência da Saúde Mental pelo King's College London. Fundador do BrainPower.
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