Foco · Atenção
Pessimismo tem cura? O ciclo do foco que treina o cérebro para o pior

Pessimismo tem cura?
Pessimismo não é doença, então não se fala em cura: é um padrão, o automático que procura o perigo, e padrão treinado se treina de novo.
O cérebro que foca no lado ruim fica cada vez melhor em encontrar o lado ruim. E o mesmo vale para o lado bom. Essa é a tese do vídeo que André Buric gravou em 2020, e é o que 4 estudos ajudam a medir neste artigo.
O vídeo abre com a cena que todo mundo conhece: "Cara, certeza que vai dar errado. Olha essa chuva. Vai dar tudo errado, não tem como dar certo. [...] Pessimismo? Não, isso é realismo" (minuto 0:05).
E faz as perguntas que levam a essa busca:
- O otimismo pode ser aprendido, ou a gente nasce otimista?
- Quem não nasceu otimista vai ser pessimista para o resto da vida?
- E a mais importante: o pessimismo tem cura?
Este tema em vídeo, com André Buric
Por que o cérebro procura o lado ruim primeiro?
Porque, para o cérebro, o ruim pesa mais do que o bom. É um automático que protege: perder um perigo de vista sempre custou mais caro do que perder uma boa notícia.
Em 2001, Roy Baumeister e 3 colegas revisaram a pesquisa sobre o assunto na revista Review of General Psychology. O que encontraram, em quase todas as áreas estudadas:
- Acontecimentos ruins marcam mais do que os bons, do dia a dia aos grandes eventos da vida.
- A informação ruim é processada com mais cuidado do que a boa.
- Uma impressão ruim se forma mais rápido e resiste mais a ser desmentida.
- Quase não apareceram exceções em que o bom pesasse mais.
Ou seja: todo cérebro já vem com o alarme mais sensível ao ruim. O pessimismo não é esse alarme; é esse alarme treinado além da conta, até virar o jeito padrão de olhar. O automático não é o inimigo. O problema é ele ter ficado sozinho no comando.
Por que quem é pessimista se diz realista?
Porque escolhe um lado da realidade e chama esse lado de "a realidade". Toda situação tem um lado bom e um ruim; quem é pessimista procura o ruim e acredita que só ele é real.
"Geralmente os pessimistas não gostam de dizer isso. Eles preferem ser chamados de realistas." (minuto 1:30) "Mas é a realidade vista sob o ângulo das coisas ruins, porque toda realidade, todo fato, todas as pessoas, todas as situações têm sim um lado positivo e um lado negativo." (minuto 8:55)
A diferença aparece diante do mesmo problema, na leitura do André:
| Diante de um problema | Quem tende ao otimismo | Quem tende ao pessimismo |
|---|---|---|
| O que procura | Uma nova rota para o mesmo objetivo | A justificativa de por que vai dar errado |
| O que faz com as pessoas | Atrai e engaja | Afasta |
| O que o cérebro treina | Encontrar alternativas | Encontrar defeitos, o "pelo em ovo" |
Para o André, é por isso que o otimismo pesa tanto em quem lidera e empreende (minuto 2:11): quem quer levar pessoas para uma visão precisa achar a rota nova quando o desafio aparece, e é essa rota que conecta as pessoas.
O que é o ciclo do foco?
É a sequência que transforma aquilo em que você presta atenção em resultado, e o resultado em mais atenção. Ela pode girar para o lado bom ou para o lado ruim.
O ciclo, na ordem em que o André explica (minuto 3:33):
- O foco gera um pensamento.
- O pensamento gera um sentimento.
- O sentimento muda o comportamento.
- O comportamento, a ação, leva a um resultado.
- O resultado, ou a falta dele, afeta a motivação.
- A motivação define o próximo foco, e o ciclo recomeça.
Como o ciclo gira para o pessimismo?
Ele começa num foco que drena energia. Sem energia, a tarefa começa sem vontade, a chance de dar errado aumenta e, quando dá errado, a pessoa procura os porquês que confirmam o pessimismo.
"Você tende a focar nas perguntas de 'por que foi que eu errei', 'por que é sempre assim comigo'. Um certo coitadismo, procurando respostas que retroalimentem o seu pessimismo. [...] Uma bola de neve que faz você focar em coisas que tiram ainda mais a sua motivação." (minuto 4:59)
O mesmo ciclo gira para o outro lado: quem mantém o foco num objetivo vê resultado, ganha energia e mantém o foco (minuto 5:21).
Como o pessimismo vira um padrão do cérebro?
Pela repetição. O cérebro adulto muda com o que faz todo dia: as áreas mais usadas se fortalecem. Quem treina o medo e a apreensão fica forte justamente nisso.
É o mesmo caminho de todo padrão: o mapa dos padrões de comportamento mostra os mais comuns e do que cada um costuma proteger.
"É igual na musculação. Se você vai à academia e treina só o seu bíceps, você vai ficar com o bíceps enorme. Isso é positivo? Obviamente não, porque você desenvolveu apenas uma área. A mesma coisa acontece no seu cérebro: se você estimula as áreas de risco, de medo, de apreensão, de coisas negativas, você desenvolve apenas este padrão." (minuto 6:17)
Não há estudo que meça o "bíceps do pessimismo". O que existe é a prova de que o cérebro adulto muda com o uso. Em 2011, Katherine Woollett e Eleanor Maguire acompanharam aprendizes de taxista em Londres, que passam anos decorando as ruas da cidade:
| O que o estudo fez | O número |
|---|---|
| Aprendizes de taxista acompanhados | 79 |
| Tempo entre o 1º e o 2º exame do cérebro | 3 a 4 anos |
| Aprendizes que se formaram | 39 |
| Pessoas de fora, para comparação | 31 |
| Quem ganhou volume na região da memória de lugares | Só quem se formou |
| Horas de treino por semana de quem se formou | O dobro de quem não se formou |
Ou seja: o mesmo cérebro, com anos de repetição, ganhou estrutura onde foi mais usado. Quem desistiu e quem não treinou não mudou. É o princípio do bíceps: o cérebro fica bom no que repete, inclusive em procurar o pior.
O ponto final desse treino, nas palavras do André: "Ele se torna profissional exatamente naquilo que você não quer, até que chega um dia em que nada mais é positivo, nada mais dá prazer, tudo é fonte de reclamação" (minuto 7:27).
Se faz semanas que nada dá prazer e isso tira o seu sono ou o seu trabalho, procure um profissional de saúde.
Quanto do pessimismo vem de nascença?
Uma parte, e não a maior. Num estudo com 3.053 gêmeos acima de 50 anos, os genes explicaram 36% da variação no otimismo; o resto veio do que cada pessoa viveu.
Miriam Mosing e colegas publicaram o estudo em 2009, na revista Behavior Genetics, com gêmeos da Austrália. Comparar gêmeos idênticos e não idênticos permite separar o peso dos genes do peso da vida. O resultado:
- 36% da variação no otimismo foi explicada por fatores genéticos.
- O restante foi atribuído ao ambiente que cada gêmeo viveu de forma própria, e não ao que os 2 dividiram em casa.
Ou seja: há quem nasça com o alarme um pouco mais sensível. Mas a maior parte do jogo está no que a pessoa vive e repete. É aí que o ciclo do foco trabalha. Às vezes, o alarme nem foi aprendido com a própria vida: o artigo sobre o medo herdado mostra como se aprende a temer vendo alguém temer.
Onde dá para virar o ciclo?
No foco. Pensamentos e sentimentos você não controla diretamente; para onde você dirige a atenção, sim. Por isso o começo do ciclo está na sua mão.
"A gente pode não conseguir controlar sentimentos ou pensamentos. Se eu falar para você 'não pense num elefante rosa', é bem difícil você não pensar. Agora, o foco é de escolha própria." (minuto 7:05)
O elefante rosa tem estudo. Em 1987, Daniel Wegner e colegas pediram a pessoas que passassem 5 minutos falando o que vinha à cabeça, sem pensar num urso branco. O que eles viram, em 2 experimentos:
- As pessoas não conseguiram tirar o urso da cabeça.
- Depois, quem tinha tentado suprimir pensou mais no urso do que quem pôde pensar nele desde o início.
- Quem recebeu um pensamento específico para pôr no lugar pensou menos no urso depois.
Ou seja: brigar com o pensamento ruim o traz de volta. O que funciona é trocar o foco, o mesmo ponto que o André aponta como a entrada do ciclo.
O que muda, na prática:
- No dia: perceber quando a atenção está indo para notícias, conversas e pensamentos que drenam, e escolher onde pôr o foco.
- Nas pessoas: "Se você foca no bom de uma pessoa, o seu relacionamento é bom. Se você foca no lado ruim, o seu relacionamento será ruim" (minuto 8:09).
- No humor: quando a irritação está alta, as manias dos outros irritam mais. É o ciclo negativo rodando, e o sinal de trocar o foco.
Quando o pensamento ruim vira conversa que não desliga na cama, o mecanismo é vizinho: veja a mente que não desliga à noite.
Otimismo se aprende?
Sim. Uma meta-análise de 29 estudos, com 3.319 participantes, mostrou que exercícios simples aumentam o otimismo, e o que mais funcionou foi imaginar o melhor futuro possível.
John Malouff e Nicola Schutte juntaram, em 2017, os estudos em que pessoas foram sorteadas para treinar o otimismo ou não. Em média, o otimismo subiu (o efeito foi de 0,41, entre pequeno e médio). O exercício que teve resultado maior se chama "o melhor eu possível".
Em 2011, Yvo Meevissen e colegas testaram esse exercício por 2 semanas. Quem imaginou o melhor eu possível ficou mais otimista do que quem imaginou as atividades do dia, já depois da 1ª sessão e ao longo das 2 semanas.
O exercício, como o estudo fez:
- Reserve 5 minutos por dia, durante 14 dias.
- Imagine a sua vida dando certo em 3 áreas: a pessoal, a das relações e a do trabalho.
- Veja a cena com detalhes: onde você está, com quem, o que conquistou.
- Repita todo dia, mesmo nos dias em que parecer bobo. É a repetição que treina o foco.
Ou seja: o mesmo treino que deixou o cérebro bom em achar o pior pode deixá-lo bom em achar a rota nova.
Como o pessimismo aparece nas três camadas?
No BrainPower, lemos o comportamento em três camadas: o consciente, a emoção e o inconsciente. O pessimismo aparece nas 3:
- No consciente, mora a frase "eu sou realista". Ela soa como lógica, e por isso ninguém a questiona.
- Na emoção, mora o desânimo que começa a tarefa já sem energia, o motor do ciclo negativo.
- No inconsciente, mora o alarme: em que momento esperar o pior protegeu você de uma decepção?
Por isso "pensa positivo" não funciona. Fala com o consciente, e o alarme mora mais embaixo. Quando o mesmo pessimismo volta em áreas diferentes da vida, é um padrão, não coincidência: veja por que você repete os mesmos padrões. E, se ele aparece justamente perto do que você mais quer, vale ler sobre autossabotagem.
A frase que o André repete sobre isso: "Você cria os seus padrões, e os seus padrões criam você" (minuto 9:47).
Perguntas que as pessoas fazem
Pessimismo é doença?
Não. É um padrão de foco, treinado pela repetição, e por isso pode mudar. Se, além de esperar o pior, nada dá prazer há semanas e isso tira o sono ou o trabalho, procure um profissional de saúde.
O pessimismo é genético?
Em parte. No estudo de Mosing e colegas (2009), com 3.053 gêmeos, os genes explicaram 36% da variação no otimismo. O restante veio do que cada pessoa viveu, e é aí que o foco de todo dia trabalha.
Qual a diferença entre ser realista e ser pessimista?
Quem é realista vê os 2 lados de uma situação. Quem é pessimista vê só o ruim e chama isso de realidade. Toda situação tem lado bom e ruim; escolher só um é uma escolha de foco.
Como deixar de ser pessimista?
Mudando o ponto onde o ciclo começa: o foco. Perceba para onde vai a sua atenção, troque o que drena pelo que dá energia e, por 14 dias, faça os 5 minutos do melhor eu possível.
Ser otimista é ignorar os problemas?
Não. Quem tende ao otimismo vê o problema e procura uma nova rota para o mesmo objetivo; quem tende ao pessimismo vê o problema e procura a justificativa para desistir.
Pessimismo é a mesma coisa que preocupação?
São vizinhos. O pessimismo é o hábito de esperar o pior; a preocupação é o alarme que fica rodando a mesma cena. O artigo sobre como parar de se preocupar mostra a conta que desmonta esse alarme.
O que fica
Pessimismo não é doença, nem destino. É o automático que procura o perigo, treinado pela repetição do foco até virar o jeito padrão de olhar. Os genes explicam uma parte; o resto é treino.
O ciclo vai do foco ao pensamento, ao sentimento, à ação, ao resultado, à motivação e de volta ao foco. O único ponto que você controla de saída é o primeiro.
Se quiser ver qual padrão está escolhendo o seu foco, o diagnóstico Inside Brain é gratuito e faz esse mapa em poucos minutos. O teste de sabotadores mostra qual voz interna puxa você para o pior. E o Mergulho no Inconsciente, a imersão da casa, é onde se descobre de onde vem o alarme que espera o pior.
Fontes
- Buric, A. (2020). Pessimismo Tem Cura? | Academia Cerebral por André Buric. Canal BrainPower no YouTube. youtube.com/watch?v=h5E3OI2F8XU
- Baumeister, R. F., Bratslavsky, E., Finkenauer, C. e Vohs, K. D. (2001). Bad is stronger than good. Review of General Psychology, 5(4), 323-370. doi.org/10.1037/1089-2680.5.4.323
- Woollett, K. e Maguire, E. A. (2011). Acquiring "the Knowledge" of London's layout drives structural brain changes. Current Biology, 21(24), 2109-2114. doi.org/10.1016/j.cub.2011.11.018
- Mosing, M. A., Zietsch, B. P., Shekar, S. N., Wright, M. J. e Martin, N. G. (2009). Genetic and environmental influences on optimism and its relationship to mental and self-rated health: a study of aging twins. Behavior Genetics, 39(6), 597-604. doi.org/10.1007/s10519-009-9287-7
- Wegner, D. M., Schneider, D. J., Carter, S. R. e White, T. L. (1987). Paradoxical effects of thought suppression. Journal of Personality and Social Psychology, 53(1), 5-13. doi.org/10.1037/0022-3514.53.1.5
- Malouff, J. M. e Schutte, N. S. (2017). Can psychological interventions increase optimism? A meta-analysis. The Journal of Positive Psychology, 12(6), 594-604. doi.org/10.1080/17439760.2016.1221122
- Meevissen, Y. M., Peters, M. L. e Alberts, H. J. (2011). Become more optimistic by imagining a best possible self: effects of a two week intervention. Journal of Behavior Therapy and Experimental Psychiatry, 42(3), 371-378. doi.org/10.1016/j.jbtep.2011.02.012
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