Padrões cerebrais
É possível mudar padrões mentais? Sim, e começa por uma decisão consciente

É possível mudar padrões mentais?
É, e o cérebro foi feito para isso. Um padrão se forma pela repetição e se fortalece a cada vez que se repete; um padrão novo se forma do mesmo jeito, só que no começo pede esforço consciente.
O André Buric parte de uma comparação que todo mundo já fez: "Seguramente você conhece alguma pessoa que faz as coisas de uma forma leve: trabalha, estuda, cuida bem do corpo, se alimenta bem. Por que, então, algumas pessoas procrastinam tanto, têm tanta preguiça, falta de foco, ansiedade, estresse?"
A diferença, para ele, está nos padrões, e eles têm uma característica que confunde: "Os padrões cerebrais são invisíveis aos olhos, porém o resultado e o impacto deles nas nossas vidas são muito visíveis" (minuto 1:08 do vídeo abaixo, citando a frase de O Pequeno Príncipe, de 1943: "o essencial é invisível aos olhos").
Em resumo, o que este artigo mostra:
- O que é um padrão: o que você faz sem se esforçar.
- Por que ele volta: sem o consciente presente, o natural é repetir o antigo.
- Como mudar: 5 passos, começando por uma decisão consciente.
- Quanto tempo leva: num estudo com 96 voluntários, de 18 a 254 dias até o novo comportamento ficar automático.
Este tema em vídeo, com André Buric
O que é um padrão mental?
É o que você faz sem se esforçar: os comportamentos, os hábitos e as atitudes que aparecem sozinhos. É o seu jeito natural de operar, e por isso quase nunca é questionado.
"São os seus comportamentos, hábitos, atitudes que você tende a ter sem se esforçar. Ou seja, é o seu natural, é o seu modus operandi. É aquilo que você tende a repetir sem se forçar." (minuto 1:50)
E não é pouca coisa. Em 2002, Wendy Wood, Jeffrey Quinn e Deborah Kashy fizeram 2 estudos em que participantes anotavam, de hora em hora, o que estavam fazendo e pensando. Entre um terço e metade das ações anotadas eram hábitos: feitas quase todo dia, no mesmo contexto. Durante os hábitos, o pensamento tendia a estar em outra coisa, porque a ação não precisava dele.
O teste que o André propõe é simples: o que você faz quando ninguém está cobrando?
| A situação | O que revela o padrão |
|---|---|
| Comer sem pensar | Você escolhe naturalmente o que nutre ou o que é mais gostoso? |
| Chegar em casa com tempo livre | Você estuda, lê, produz, ou vai para o sofá e uma série qualquer? |
| Sentar para trabalhar | Você foca, ou a atenção escapa para o celular? |
| Alguém irrita você | Você responde no automático, ou consegue escolher a resposta? |
"Cada padrão que nós repetimos, nós fortalecemos" (minuto 1:41). É daí que vem a frase que ele mais diz: você cria os seus padrões, e os seus padrões, em última instância, criam você. Se a sua pergunta é por que o mesmo roteiro volta mesmo quando você tenta mudar, o artigo por que você repete os mesmos padrões mostra a outra metade dessa história.
Por que parece que eu vivo em luta comigo?
Porque o padrão que você treinou e o que você quer não combinam. Quem treinou o cérebro com padrões que não ajudam passa o dia brigando consigo, antes mesmo de enfrentar o mundo.
"Pessoas que querem produzir, mas procrastinam. Que começam a focar, mas se distraem. Que querem ter controle emocional, mas estão histéricas para todos os lados. Que querem ficar centradas, mas estão ansiosas. Ou seja, elas estão nessa luta com elas mesmas, e o mundo está acontecendo ao redor. A dificuldade nem chega a ser a do mundo, porque ela não conseguiu vencer a ela própria." (minuto 2:44)
Cada uma dessas lutas tem um padrão por trás, e a casa já escreveu sobre vários deles:
- Querer produzir e adiar: o que é procrastinação de verdade.
- Começar a focar e se distrair: falta de foco, causas e soluções.
- Estragar justamente o que mais quer: autossabotagem.
- Perder o controle com quem está perto: raiva com quem você ama.
Na leitura da casa, essa briga tem nome: atrito interno, a vida andando com o freio de mão puxado. O padrão antigo não é um inimigo; é o automático fazendo o que aprendeu a fazer, para proteger.
Como mudar um padrão mental?
Começando por uma decisão consciente e sustentando o esforço até o novo padrão ficar natural. O inconsciente tende a respeitar os padrões antigos; só o consciente consegue interromper a repetição no começo.
O caminho, na ordem em que o André explica:
- Decidir, de forma consciente. "Você precisa querer mudar. Essa decisão precisa vir de forma consciente, porque, inconscientemente, de forma natural, sem se forçar, você tende a respeitar os seus padrões anteriores" (minuto 3:57).
- Prestar atenção no que você faz. No vídeo, o André lê um trecho de Daniel Goleman, que escreveu em 2013 que a mente usa a autoconsciência para manter tudo o que fazemos nos trilhos: a metacognição, o ato de pensar sobre o pensamento, permite saber como vão as nossas operações mentais e ajustá-las quando preciso (minuto 4:22). É ela que deixa você orientar a ação, em vez de repetir de forma mecânica.
- Sustentar o esforço no começo. "Você vai ter, sim, que se esforçar no começo, pelo menos até que, pouco a pouco, os seus padrões vão sendo alterados" (minuto 5:43).
- Repetir no mesmo contexto. O cérebro se reorganiza conforme o que você treina. O novo comportamento, feito sempre na mesma situação (depois do café, ao chegar em casa), vai pedindo menos esforço a cada vez, até sair com naturalidade.
- Declarar o que você quer. "Quando você declara para você mesmo 'eu quero melhorar', você começa a trazer para o seu cérebro a informação de que ele deve buscar maneiras para que você evolua" (minuto 6:49).
Por que eu volto para o padrão antigo?
Porque, sem o consciente presente, o natural é repetir. Os animais apenas reagem; do ser humano se espera um pouco mais, e esse "mais" é a parte consciente do cérebro, que precisa estar ligada no período da mudança.
"Às vezes a reação, quando é automática, a gente se arrepende depois e fala: eu poderia ter agido de uma forma diferente. Esse é exatamente o papel das suas atividades executivas, das atividades conscientes no seu cérebro" (minuto 5:17).
Quanto tempo leva para um padrão novo virar natural?
Não há prazo único: num estudo com 96 voluntários, o tempo até o comportamento novo ficar automático variou de 18 a 254 dias. Errar um dia não zerou o processo.
O estudo é de Phillippa Lally e colegas, publicado on-line em 2009 no European Journal of Social Psychology. Os números, como estão no resumo:
| O que o estudo fez e achou | O número |
|---|---|
| Voluntários que escolheram um comportamento novo (comer, beber ou se exercitar) | 96 |
| Duração do acompanhamento, com anotação diária | 12 semanas (84 dias) |
| Quem deu dados suficientes para a análise | 82 |
| Tempo até o comportamento chegar perto do automático máximo | de 18 a 254 dias |
| Efeito de deixar de fazer 1 vez | nenhum efeito relevante |
Duas lições práticas saem daí. A primeira: quem fez o comportamento com mais constância, no mesmo contexto, teve a curva mais limpa. A segunda: o prazo de cada pessoa é diferente, então comparar o seu ritmo com o de alguém só serve para desistir antes da hora. O artigo como parar de mexer no celular toda hora aplica esse mesmo estudo a um automático que quase todo mundo tem.
Por que mudar de padrão é necessário para mudar de vida?
Porque os padrões de hoje são exatamente os que trouxeram você até aqui. Para chegar a outro lugar, você precisa de outros.
"Os padrões que você tem hoje foram os padrões que te trouxeram até aqui. Se você quer ir para lá, você necessariamente precisa de novos padrões: melhores, mais evoluídos, mais desenvolvidos." (minuto 7:06)
O grupo que o André chama de "1%" é exatamente este: quem conseguiu criar os próprios padrões alinhados ao que quer ser. Quem quer se alimentar bem e criou o padrão de se alimentar bem, e por isso sente prazer nisso, sem a obrigação chata de se forçar.
Perguntas que as pessoas fazem
Quanto tempo leva para mudar um padrão mental?
Não há um prazo único. No estudo de Lally e colegas, com 96 voluntários, o tempo até um comportamento novo ficar automático foi de 18 a 254 dias. O começo pede esforço consciente; a mudança se completa quando o novo sai sem esforço.
Qual a diferença entre padrão mental e hábito?
O hábito é uma das formas do padrão. O padrão inclui também o jeito de pensar, de sentir e de reagir: tudo o que você faz no automático, sem se esforçar.
Por que só a força de vontade não muda um padrão?
Porque ela atua no consciente, e o padrão mora no automático. A força de vontade serve para interromper a repetição no começo; o que muda o padrão é a repetição do novo, no mesmo contexto, até ele virar natural.
Dá para mudar um padrão sem ajuda?
O primeiro passo, a decisão consciente, é seu. Entender de onde o padrão vem e reprogramá-lo costuma ser mais rápido com método, porque o que governa você é justamente o que você não enxerga por conta própria.
Padrão mental tem a ver com o inconsciente?
Tem. O padrão é o que o inconsciente executa sem pedir licença. Por isso a casa lê todo comportamento pelas três camadas: o consciente, a emoção e o inconsciente.
Errar um dia faz voltar à estaca zero?
Não. No mesmo estudo de 2009, deixar de fazer o comportamento 1 vez não atrapalhou de forma relevante a formação do hábito. O que pesa é a constância ao longo das semanas, não a perfeição de cada dia.
O que fica
Padrão mental é o que você faz sem se esforçar. Ele se forma pela repetição e se fortalece a cada vez que se repete, para o bem ou para o mal.
Mudar é possível, e começa por uma decisão consciente: o inconsciente respeita o padrão antigo até que o novo, repetido, vire o seu natural. Leva semanas ou meses, e um dia de falha não apaga o caminho.
Se quiser ver quais padrões estão no comando hoje, o diagnóstico Inside Brain é gratuito e faz esse mapa em poucos minutos; os testes gratuitos da casa leem padrões específicos, como a procrastinação e a autossabotagem. Para reprogramar um padrão de anos, o BrainLAB é o programa da casa. E o Mergulho no Inconsciente mostra de onde o padrão nasceu.
Fontes
- Buric, A. (2021). É Possível Mudar Seus Padrões Mentais?. Canal BrainPower no YouTube. youtube.com/watch?v=l1E62hDW6EM
- Wood, W., Quinn, J. M. e Kashy, D. A. (2002). Habits in everyday life: Thought, emotion, and action. Journal of Personality and Social Psychology, 83(6), 1281-1297. doi.org/10.1037/0022-3514.83.6.1281
- Lally, P., van Jaarsveld, C. H. M., Potts, H. W. W. e Wardle, J. (2010). How are habits formed: Modelling habit formation in the real world. European Journal of Social Psychology, 40(6), 998-1009 (publicado on-line em 2009). doi.org/10.1002/ejsp.674
- Goleman, D. (2013). Attention Regulates Emotion: Focus and Self-Control. Psychology Today, 4 de novembro de 2013. psychologytoday.com
- Saint-Exupéry, A. (1943). O Pequeno Príncipe (a frase "o essencial é invisível aos olhos").
Manda para quem vive dizendo que é assim mesmo e não muda:
Para ir à raiz
Mergulho no Inconsciente, 23-24 de Janeiro de 2027
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